
Naquela manhã,Delfina,a pata,disse ao mais novo dos seus cinco filhos:"Hoje,como estás muito constipado,não vais comigo ao rio".Donato,o patinho,não gostou mesmo nada da decisão materna,mas teve de a acatar.E lá ficou,de cachecol ao pescoço,vendo como a família partia para mais um dia de natação nas águas espelhadas do grande curso de água.Antes de desaparecerem numa curva do caminho,Delfina voltou-se para trás e repetiu ao filho doente o que já lhe recomendara antes :"Não saias de casa até ao nosso regresso.E não abras a porta a ninguém".Donato fez que sim com a cabeça e para ali ficou,triste como a noite,antevendo as horas de solidão que iria passar entre aquelas quatro paredes.E uma ideia condenável luziu na sua mente...Era como se uma voz muito persuasiva lhe dissesse:"Ora,Donato!Que mal faz se saíres só por uns minutos?..."Sim,que mal fazia?Era só dar uma volta pelas redondezas e voltar.Desse modo,o tempo passaria mais depressa,e não se aborreceria tanto.E quando a mãe e os irmãos voltassem do rio,encontrá-lo-iam onde o haviam deixado.Então,abriu a porta da rua,olhou em todas as direcções para ver se não havia perigo,e aqui vou eu,que se faz tarde!Uns metros adiante,encontrou o rato Isaías e um amigo,chamando nomes feios à coruja Quitéria.Donato não gostava nada dela,porque sempre a achara muito antipática,e juntou a sua voz ao pequeno coro que a insultava.Estavam nisto quando eis que surge,ao longe,a figura sinistra do raposo Zacarias.Mal o viram,os dois ratitos deram às de vila-diogo;mas Donato,com o seu andar lento e desajeitado,pouco podia fazer...Ainda por cima,de tão assustado que estava,perdeu por completo o sentido da orientação e,em vez de voltar para casa,adentrou-se na floresta.Zacarias,que já o vira,lambeu os beiços de satisfação,e nem sequer apressou o passo,pois sabia que o patinho não poderia escapar-lhe.Donato chorava,desesperado,maldizendo o facto de não ter seguido os sábios conselhos de sua mãe.Mas agora era tarde para demonstrar o quanto estava arrependido.Até que,a certa altura -e quando tudo já parecia perdido-,ouviu uma voz que o chamava,e um vulto alado que descia velozmente sobre ele,para no segundo seguinte se ver transportado pelos ares,preso por umas garras que o seguravam sem o magoar.Era Quitéria,a coruja,que,num gesto de generosidade,o estava pondo a salvo dos dentes do raposo.Pouco depois,a coruja pousava de mansinho no ramo de uma árvore ,em cujo tronco oco tinha a toca;e,com ela,Donato."Esconde-te aí",ordenou-lhe a coruja,apontando para o buraco forrado de penas.O patinho não se fez rogado,e Quitéria pôs-se a piar como sempre fazia."Eh,velha comadre!Não viste por aqui um pato?",gritou-lhe,lá de baixo,Zacarias."Um pato amarelo e enfezado?",perguntou ela."Já cá canta no meu papo,compadre!",mentiu,rematando:"Deixe-me que lhe diga uma coisa...Não perdeu nada em não lhe ter metido o dente.Aquilo era só ossos e penas".O raposo encolheu os ombros e foi-se embora,pensando,talvez,no galinheiro que iria assaltar na próxima madrugada."Salvaste-me a vida",disse Donato,agradecido,tentando beijar com o bico uma das asas de Quitéria.Nisto,apareceram Anita,a joaninha,e o besouro Simão,que sempre vinham tomar chá e pôr a conversa em dia com a bondosa coruja.Donato ficou com o grupo até Zacarias estar bem longe,e regressou a casa acompanhado pela sua salvadora.E quando,ao fim do dia,voltaram do rio a mãe e os irmãos,encontraram-no muito sossegado,e nem sequer desconfiaram do perigo por que tinha passado e das lições que recebera.Quanto a ele,jurou para si mesmo que não voltaria a ser desobediente,nem a pensar mal de ninguém.

