FESTEJANDO O DIA MUNDIAL DA TERRA

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Return To Avalon - Regreso a Avalon

REGRESSO A AVALON/RETURN TO AVALON

A VISITA DO PAI NATAL

Pedro era um pequeno pastor de meia dúzia de ovelhas,que tutelava,todas as tardes,até à serra,mal chegava da escola.Seus pais eram muito pobres e aquelas ovelhas eram a única riqueza que possuíam. No casebre onde viviam não havia mais que duas enxergas e uma mesa meio desconjuntada,onde a família fazia as parcas refeições que o mourejar diário lhe proporcionava. Chegado o Natal,o interior das casas da pequena vila brilhavam como estrelas na noite escura.Eram as árvores ornamentadas com luzinhas de muitas cores,o fogo aconchegante das lareiras e,como não podia deixar de ser,os saborosos acepipes que coloriam e perfumavam a mesa da tradicional ceia. Mas para Pedro não havia nada disso.A noite de Natal era exactamente igual às outras,passada na serra até muito tarde e regressando,apressado,quando escutava,vindos dos cumes,os uivos dos lobos. Nem ceia,nem presentes,nem nada...A sua vida era mesmo assim.E nem se queixava,porque sabia que de nada lhe serviria fazê-lo.O seu sonho de um dia poder dar uma vida melhor aos seus pais não passava disso-de um sonho,certamente,irrealizável. Porém,nesse Natal,tudo seria diferente... De súbito,ouviu o tilintar de muitos chocalhos e,voltando-se,deu de caras com um velho de longas barbas brancas que acabava de apear-se de um trenó belamente ornamentado e atafulhado de presentes. -Quem é vossemecê?-perguntou Pedro,temendo que o recém-chegado lhe quisesse fazer mal ou,talvez-quem sabe?-roubar-lhe as ovelhas. -Não temas-disse-lhe o velho,olhando-o com doçura.-Não me reconheces? -Não,senhor-respondeu Pedro,encabulado. -Nunca ouviste falar no Pai Natal?-perguntou-lhe o estranho personagem. -Já-disse o pequeno pastor.-Mas sei que não existe. -Enganas-te-volveu o velho.-Eu sou o Pai Natal.E trago-te um presente. -A mim?-perguntou Pedro,desconfiado. -Sim.A ti. E,dando meia-volta,dirigiu-se ao trenó e regressou para junto do menino com um enorme ovo,mais brilhante que a lua que iluminava o céu. -É um ovo de ouro-disse-lhe o Pai Natal.-Com a venda deste ovo,poderás libertar os teus pais do jugo da miséria em que viveis.Mas o mais importante não é o ovo em si,mas o que está no seu interior. E,abrindo-o,retirou de lá um pequeno pergaminho e estendeu-o a Pedro. -Sabes ler,não é verdade? -Sei,sim,senhor. -Então lê o que está escrito. -Só tem uma palavra. -E que palavra é?-perguntou-lhe o Pai Natal. -CONFIA,leu o pequeno pastor. -Exactamente!CONFIA.Confia sempre.Se o fizeres,não temerás a pobreza nem nenhuma outra contrariedade que possa surgir na tua vida.E transformar-te-ás numa grande pessoa,talvez num médico de grande prestígio,num cientista de renome...eu sei lá! Afagando o cabelo de Pedro,rematou: -Que tenhas um Feliz Natal. E,sorrindo sempre,tomou assento no trenó,ordenou às renas que avançassem e partiu,céu fora,rumo ao infinito. -CONFIA,leu Pedro,de novo.-Sim!A partir de agora,nunca deixarei de confiar!-murmurou,resoluto. E,chamando o pequeno rebanho,desceu a serra rapidamente,levando,nas mãozitas geladas,aquele ovo maravilhoso que iria mudar para sempre a sua vida e a da sua família.

LUCÍA-A CURADORA

A prática da caça-de andar a roubar a vida aos animais por puro deleite-é um crime abominável.Mas continua a exercer-se,apesar de todos quantos protestam contra ela. Esta é a história de uma menina-Lucía de seu nome-,que decidiu erguer bem alto a bandeira da luta contra o assassinato dos nossos irmãos-os animais. Como vive muito perto de uma floresta onde homens sem coração nem respeito pela Mãe Natureza e por si próprios se dedicam a essa actividade,procura ajudar as indefesas vítimas,alertando-as para a chegada iminente dos seus algozes;e,no caso de encontrar algum bicho imobilizado pelos chumbos que o atingiram(com uma ferida não mortal ou uma pata partida),trata de os curar o melhor que pode e sabe. Ragnar-o seu amigo corvo-,com quem ela dialoga como se estivesse a falar com uma pessoa,participa diligentemente nessa dolorosa mas belíssima missão de dar apoio a quantos coelhos,raposas,perdizes,gaios e outros filhos da criação rusticana precisem do seu generoso contributo. -Há uma raposa ferida a um par de quilómetros daqui!-informa-a o corvo. E lá vão os dois-ele voando e ela correndo a bom correr-levar o necessário auxílio à infeliz raposa. Por tudo isso é amada por cada ser que habita a floresta(incluíndo as próprias árvores,os riachos de águas saltitantes e até as pedras que,revestidas de musgo,lhe pedem que se sente sobre elas quando,ofegante,regressa de mais uma das suas missões salvíficas. Para aqueles que pensam que só há gente má ao cimo da Terra,o exemplo de Lucía,com o seu abnegado esforço ,vem demonstrar o contrário,ou seja,que,na verdade,ainda há muita gente de bom coração que faz frente à maldade,à ignorância e à desumanidade de alguns. Muito em breve falar-vos-ei,de novo,de Lucía,e do profundo amor que dedica àqueles que,vivendo no Planeta Azul,têm tanto direito à vida como todos nós. Entretanto,será muito bom que nos disponhamos a engrossar as fileiras deste exército pacífico,cujo único objectivo é transformar o mundo em que vivemos num lugar maravilhoso,onde todos-pessoas e animais-possamos viver felizes.

AS MAÇÃS DO SENHOR TOMÁS


O senhor Tomás orgulhava-se de ter o melhor e mais viçoso pomar em muitas milhas em redor.Na verdade,as suas maçãs-que ocupavam quase a totalidade da sua produção frutícola-eram únicas!Grandes,de pele brilhante e,sobretudo,muito saborosas.E o seu número era de tal magnitude que se via obrigado a guardá-las,quando amadureciam,num celeiro onde armazenava,também,outros frutos da sua colheita.O pior é que,volta e meia,as maçãs desapareciam como por encanto,sem que em torno dos cestos onde as guardava pudesse detectar pegadas ou outro tipo de sinais que lhe permitissem desmascarar e deitar a unha ao misterioso larápio. Ora o nosso amigo Tomás tinha um rato de estimação-o Avelino-,que salvara,num compassivo gesto,de morrer afogado no tanque da quinta.E que ideia teve?A de treinar o pequeno roedor de molde a transformá-lo num verdadeiro guarda.E até pediu à costureira da aldeia que lhe fizesse uma farda e,se a tal lhe chegasse o engenho,um boné a condizer. Alguns dias depois,o rato Avelino era entronizado como guarda do celeiro do senhor Tomás.Porém,os roubos das maçãs continuaram a acontecer,sem que o simpático ratinho pudesse fazer algo para os impedir.Até que,numa certa noite,quando Avelino se preparava para fazer uma merecida e revigorante soneca,ouviu distintamente risos e cochichos que,pela sua intensidade,se percebia provirem do interior do celeiro.Pé ante pé-ou,melhor dizendo,pata ante pata-aproximou-se do local onde os responsáveis por tais ruídos se encontravam...E que viu?Dois trasgos banqueteando-se com as maçãs,em companhia de um anafado esquilo!Convém,antes de mais,explicar o que é um trasgo,já que os esquilos toda a gente sabe o que são.Ora vamos lá ver se o saberei fazer de forma clara...Os trasgos são uma espécie de espíritos caseiros extremamente astutos,especialistas em dar cabo do juízo aos infelizes que com eles se cruzarem.Adoram pregar partidas,partir loiça,roubar objetos de estimação,em suma,fazer toda a espécie de tropelias. Sem fazer ruído,o guarda Avelino saiu do celeiro e foi chamar o senhor Tomás.Este,dormia a sono solto,e o seu pequeno ajudante teve de lhe mordiscar a ponta do nariz para o acordar.O pobre homem soltou um grito de dor e,ao ver o rato,percebeu,de imediato,que algo de grave se estava passando.Então,vestiu-se rapidamente,pegou numa moca de madeira de vidoeiro que guardava sempre atrás da porta e avançou para o celeiro.Aí chegado deu com os gatunos das suas queridas maçãs que,ao vê-lo,fizeram menção de fugir."Esperem",pediu-lhes o senhor Tomás."Não vos quero fazer mal.Desejo,apenas,chegar a um acordo convosco".E qual foi o trato que fez com eles?,perguntar-vos-eis.O de se comprometerem a não roubar mais maçãs,em troca de uma tarefa que seria justamente remunerada."Colheis os frutos das macieiras e eu,em troca,dou-vos,semana após semana,uma arroba(1) bem medida de maçãs".Os trasgos conferenciaram entre si e concordaram com a proposta do agricultor.E,a partir desse dia,cessaram os roubos e os consequentes prejuízos. Que lição nos é possível extrair desta história?Que,com diálogo e compreensão,podemos resolver todos os problemas,sem precisarmos de recorrer à violência e à vingança,como tantas vezes fazemos. Que belo exemplo o do senhor Tomás!Vamos segui-lo? (1)Arroba(do árabe "ar-rub",a quarta parte) é uma antiga unidade de massa usada em Portugal,no Brasil,em Espanha e na América Latina hispánica,e equivale a 15 kg.

AMIGAS PARA SEMPRE


Florbela lembrava-se bem do dia em que seu pai a acompanhara ao Canil Municipal.Tinha,então,5 anos;mas recordava-se de todos os pormenores.Os adultos,coitados,é que pensam que os mais novos têm cérebro de peixe!Nada mais falso,porém.E ela,se fechasse os olhos,podia ver na sua tela mental todas as imagens desse memorável acontecimento. Há muito que desejava ter um amiguinho de quatro patas.E estás disposta a responsabilizar-te por ele?,perguntara-lhe o pai. (Sim,porque,isto de ter um cão,um gato,uma tartaruga ou seja que animal for,requer,da nossa parte,um enorme grau de responsabilidade!Os animais não são "coisas" para usar e deitar fora!Precisam de ser bem tratados e,acima de tudo,respeitados,que o mesmo é dizer amados). Florbela passara os olhos pelas várias dezenas de cães que,ladrando e cabriolando,a fitavam,como que a pedir-lhe:"Escolhe-me a mim!Escolhe-me a mim!"Mas,como só podia levar um,deixou-se encantar por uma cadelita tímida e de expressão meiga.É essa!,disse-lhe o coração.Notava-se que já não era nova -um dos funcionários do canil calculou que devia ter uns 8 anos,o que para um cão é,já,uma idade bastante avançada-,mas esse facto não a impediu de se apaixonar por ela;e de o amor entre ambas florescer logo no primeiro instante.Um amor que agora,passados quatro anos,se mantinha viçoso e forte como um enorme girassol. Porém,a roda do tempo é imparável.E Nina -que era como Florbela a baptizara- ia envelhecendo sem remédio.Andava mais devagar,começava a ficar surda e,segundo o veterinário que a seguia,cegaria dentro de poucos meses.Por isso -e em homenagem aos belos tempos que haviam passado juntas-,resolveu escrever-lhe uma singela carta,para que ficasse para a posteridade um testemunho do muito que Nina lhe proporcionara. E fê-lo nos seguintes termos: "Minha Querida Nina: Estás a ficar velhinha,é certo;mas,para mim,continuas a ser a mesma adorável amiguinha que brincava comigo ao esconde-esconde e me mordiscava os dedos dos pés quando,juntas,tomávamos banho no riacho que corre junto à casa da vovó Maria.Tu és a estrelinha que desceu dos céus para alegrar os meus dias.E ficarás para sempre guardada na quente e perfumada casotinha do meu coração.Obrigada por tudo o que me deste. Amo-te muito. Florbela."

A MENINA DO LAÇO VERMELHO

Eu não quero que a história que vos vou contar pareça uma história triste.Porque,como podereis constatar no final,não o é.Muito pelo contrário!Mas como tenho de usar a palavra "morte"(que é uma palavra bem tonta),e como a heroína é uma menina de 7 anos,é natural que penseis que se trata de uma narrativa profundamente negativa. Ora comecemos... Lídia era uma criança como tantas e tantos de vós:alegre,brincalhona e sonhadora.Raramente deixava de sorrir,mesmo quando a doença-uma doença com um nome muito complicado e da qual não vale a pena falar- se apoderou do seu frágil corpo.Mas,apesar disso,nunca deixou de usar o seu laçarote encarnado,que era como que uma espécie de sinal de felicidade interior. Vivia ela com sua mãe-uma jovem professora primária- numa casinha muito airosa situada a dois passos de um pequeno mas frondoso bosque,onde os esquilos e os pássaros sedentários tinham os seus refúgios. Era uma vida igual à de tantas outras famílias,feita de dias mais ou menos felizes;e tudo parecia correr no melhor dos mundos,quando a tal doença se manifestou. Primeiro,foram as visitas a vários médicos.Depois,uma sucessão de tratamentos,qual deles o mais doloroso.E,finalmente,o veredicto:o mal que apoquentava Lídia não tinha cura.Agora,tratava-se de lhe explicar que ia partir em breve-que ia morrer.E essa explicação tinha de lha dar a sua própria mãe.Mas como dizer a uma menina de sete anos que vai deixar de existir?... Amélia -a mãe de Lídia-,pensou em milhentas frases e noutros tantos estratagemas,mas tudo lhe pareceu ridículo.E,no entanto,tinha de encontrar uma maneira de contar à sua filha a terrível verdade. Até que,no início de uma tarde de domingo,preparou um pequeno farnel e disse a Lídia: -Vamos passar a tarde no bosque.Achas bem? -Acho-respondeu a menina.-Mas se é para me informares de que estou a morrer,não vale a pena. As palavras de Lídia fizeram estremecer a mãe: -Como é que sabes que estás a morrer?Quem te disse tal disparate?!-protestou Amélia,olhando a filha com uma expressão de falso azedume. -Foi "ele"-confidenciou-lhe Lídia. -"Ele"?!Mas quem é esse..."ele"?! -É o meu amigo.O meu guia-respondeu a menina. -Eu conheço-o?-quis saber a mãe. -Não;não conheces-volveu Lídia,num tom de voz muito calmo. -Fala-me acerca dele-pediu-lhe a mãe,temendo tratar-se de alguém que pudesse molestar a sua filha. -É lindo...!-disse Lídia,semicerrando os olhos e sorrindo. -É um menino como tu?-perguntou-lhe a mãe. -Não.É mais velho.Talvez da tua idade. (Amélia pensou no pai de Lídia,que a havia abandonado poucos dias depois do seu nascimento e nunca mais voltara.Andaria ele rondando a sua menina,sabe-se lá com que intenções?...Tratava-se de uma pessoa pouco recomendável,que a enganara e a deixara com uma filha nos braços...) -É alto?-começou por inquirir,tendo em conta que se tratava de um indivíduo bastante corpulento. -Nem é alto nem baixo-informou Lídia. -De que cor é o seu cabelo? -Às vezes,parece dourado.Outras vezes parece que cada um dos seus cabelos tem todas as cores do arco-íris-revelou. Amélia ficou perplexa com tal descrição.E demonstrou-o,dizendo: -Isso não é possível.Não terás sonhado?... -Não-foi a resposta pronta de Lídia.-Ele é verdadeiro;tão verdadeiro como tu e como estas árvores que nos rodeiam.E ama-me muito. -Como sabes? -Porque ele próprio mo disse. -E não te disse como se chamava? -Não.Para que haveria de fazê-lo?No mundo a que pertence ninguém tem nome. -Mas...que mundo é esse? -O da Consciência. Aquilo já começava a ser de mais para a compreensão de Amélia.Respirando fundo,inquiriu: -Ele mostrou-te esse...esse mundo? -Claro-respondeu Lídia com indisfarçável entusiasmo.-Levou-me a visitá-lo. -E como é?... -É um lugar magnífico!De certo modo,é parecido a este em que nos encontramos,mas é tudo muito mais belo!A relva é muito mais verde.As flores têm cores incríveis que só lá existem.Os animais são mansos,muito mansos... -E as pessoas? -Ah,as pessoas são todas jovens,têm a pele muito macia e brilhante,e os seus olhos parecem conter milhões de gotinhas de orvalho beijadas pelo sol.Além disso,tudo tem luz própria.Até a mais humilde das ervas. -E falaste com alguém? -Falei com a avó Mariana. (Tratava-se,na verdade,da sua bisavó materna,falecida três anos antes,com a provecta idade de 95 anos.) -Era a tua bisavó-emendou Amélia.-Mas,quando ela morreu,tinhas tu 4 aninhos.Como podes lembrar-te dela? -Não me lembrava-explicou Lídia.-Ela é que me disse quem era.Eu,a princípio,não acreditei,porque me parecia demasiado nova.Era linda,linda! -Quantos anos teria? -Uns vinte. -Não.Não poderia ser a tua bisavó-concluiu Amélia. -Pois.Só que ela,de repente,envelheceu,para me mostrar como era quando partiu.Nesse mundo,as pessoas têm a idade que desejam ter.E é para aí que eu vou!-disse Lídia,com um sorriso de triunfo bailando-lhe nos lábios.Para logo continuar:-Nesse mundo não há velhice,nem doenças,nem dinheiro,nem maldade.Só há paz,alegria,harmonia e beleza!E muita música!E frutos que parecem pedras preciosas e sabem a música! -Só viste a bisavó Mariana?-indagou Amélia. -Vi outras pessoas.E um cão.Um cãozito pequeno,branco,com uma mancha negra em torno de um dos olhos. (A bisavó de Lídia tivera um cachorro exactamente igual a esse,que morrera de velho muito antes de a pequena ter nascido.) -Ela disse-te como se chamava o cãozinho?... -Disse.É um nome esquisito.Acho que é Flato. -Fly(flai)-emendou Amélia,rindo. -Sim,é isso!-confirmou Lídia.-Ele disse-me que gostava muito de mim.E que quando eu for para esse mundo,havemos de brincar muito. -Os cães não falam-protestou Amélia,com doçura. -Ele não falou.Nem ladrou.Foi assim como uma espécie de transmissão de pensamento. Entretanto,o Sol começava a pôr-se.Uma leve e fresca brisa atravessou o bosquezinho,agitando ao de leve as ervas e as gentis flores silvestres.Era hora de regressar a casa... Fizeram-no de mãos dadas,como se fossem duas amigas da mesma idade. -Nesse mundo não há pais,nem filhos,nem irmãos,nem avós-esclareceu Lídia,enquanto caminhavam.-Isso a que chamamos família só existe aqui.Nesse mundo somos todos amigos-muito amigos-,e nada mais. Em resposta,Amélia apertou-a contra si com infinita ternura. Os dias foram decorrendo,e a doença que minava o cada vez mais indefeso corpito de Lídia ia ganhando terreno.Até que,já prostrada no leito por não ter mais forças para se levantar,chamou,com um fio de voz,a sua mãe. -"Ele" esteve aqui-confidenciou-lhe.-E disse-me que me vem buscar amanhã.Ficas triste? Um soluço estalou na garganta de Amélia.Ela não queria que a sua menina se apercebesse da profunda dor que sentia.E,num tom que pretendia ser descontraído,falou: -Esse teu amigo não sabe o que diz!Vamos continuar juntas por muitos anos! -Não,mãezinha.Não vamos.Amanhã voarei com ele para o seu mundo.E,um dia mais tarde,reencontrar-nos-emos.Entretanto,quero que me faças um favor.Quando eu me for,peço-te que coloques nos meus cabelos o lacinho vermelho.Prometes? -Claro que sim-respondeu Amélia,refreando as lágrimas. -Depois de eu partir,quero que vás ao bosque e te sentes no lugar onde estivemos.Então,verás uma borboleta da cor do meu laço.Esse será o sinal de que estou mais viva do que nunca e em companhia da bisavó Mariana e do Fly.Prometes-me que vais? -Prometo,meu amor. Após este curto diálogo,Lídia adormeceu.E assim permaneceu durante longas horas,sempre velada pela mãe.Até que,na manhã seguinte,acordou e,soerguendo-se a muito custo,exclamou,de braços estendidos para a janela do quarto: -É "ele".O meu amigo. E partiu serenamente.
Nas semanas seguintes,Amélia chorou amargamente o infausto acontecimento.Apesar do que Lídia lhe confidenciara,para ela a morte continuava a ser uma coisa feia e assustadora.E tudo o que se dissesse para além disto era pura fantasia.Mas,apesar do seu cepticismo-tão vulgar em quem nunca experimentou o "outro lado"-,resolveu ir até ao bosque e sentar-se no mesmo lugar onde estivera com a sua amada filha da última vez. Ao recordar esses momentos,grossas lágrimas lhe sulcaram a face pálida.A Primavera já ia alta e tudo fervilhava de vida.Através das árvores,os raios solares penetravam naquele anfiteatro florido e perfumado. Até que um desses raios-talvez mais potente do que os outros-incidiu,qual holofote apontado ao artista que evolui no palco,sobre uma belíssima borboleta vermelha. -É o sinal!-exclamou Amélia,levando a mão ao peito. Agora,sabia que Lídia não morrera!Sabia que isso da morte é uma história muito mal contada,porque a "morte" é algo que não existe! E aí estava essa maravilhosa borboleta vermelha para lho provar.

A FLORESTA ESTÁ MUITO CARINHOSA

Desta vez,o autor é outro...Trata-se do menino Pedro Ivo,de Goiânia,Brasil,que descreveu assim esta pintura: "Eu vi um coelhinho e uma maçã,um passarinho,uma fadinha,um bebezinho,uma estrela no rostinho dele e um montão de florzinha em volta,e um montão de frutinhas.Tem uma floresta que é muito carinhosa e está nas nuvens.O bebé-anjo está pondo a carinha pra ver as fadinhas,pra ver se ela está bem carinhosa.E tem um floco de neve e,quando balança fica nevando,e tem água dentro,igual da minha irmã Laryssa,e de fora é feito de vidro.O passarinho tem preto e azul,e tem cinza,e ele usa um chapeuzinho muito bonitinho e tem bico e está cantando.Tem um caracolzinho e um montão de luizinha em volta.E tá cheio de bolinha cinza e azul.E a fadinha está usando um vestido que é cinza e ela está segurando a maçã.E ele está "assim" pra mostrar pro anjinho que a floresta está muito carinhosa."(Pedro Ivo,6 anos,quase 7 "e ainda vai demorar umpouquinho"). Lindo,não é?Quem me dera escrever assim!

O NATAL EM AHALAUM OU A SUBLIME NOITE DAS FLORES LUMINOSAS

São múltiplos os universos paralelos,como são incontáveis em número e diversidade os seres que habitam as suas esferas.E em quase todas elas se festeja o Natal.
É o caso de Ahalaum,planeta de pouca densidade e de cor esmeraldina,situado numa dimensão vibratória muito superior àquela em que gravita a Terra,e certamente muito mais evoluído sob todos os pontos de vista-de tal modo que o que lá é trivial em termos tecnológicos será
,para nós,pura magia.
O Natal em Ahalaum acontece numa data denominada Intercâmbio do Avatar,no início do Terceiro Teutargo.
(Chamam-se Teutargos ao princípio e final dos Três Grandes Letargos-espécie de hibernação colectiva de reequilíbrio energético-,os quais contam com seis festas:Intercâmbio Lunar(1);Intercâmbio Flório;Intercâmbio Esmeraldino;Intercâmbio Estelar;Intercâmbio Avatar e Intercâmbio do Regresso ou do Renascimento.)
Sabereis,por certo,que Avatar é a descida de um ser divino,em forma materializada, ao convívio dos humanos.Assim,tal como Jesus é um Avatar em relação à Fé Cristã,Y-Juaa-o Senhor do Sorriso Perene-personifica essa entidade em relação aos habitantes de Ahalaum.
Diz-se que foi incubado numa Shala(Flor Sagrada),em cujo receptáculo Halaany(sua mãe) e Heliom(seu pai),depositaram,cada um de per si,uma lágrima de alegria.Da fusão dessas duas lágrimas nasceu,pois,Y-Juaa.
Na Noite de Natal,ou seja,quando se recorda e festeja o seu nascimento,as pessoas reúnem-se nos imensos jardins que cobrem,quase por completo,o Planeta Verde,bebem o Térgure-espécie de licor refrescante cuja cor mistura o ouro com o vermelho da groselha-,comem a Patía-uma torta gigantesca muito tostada,confeccionada com belíssimas bagas que fazem lembrar pedras preciosas- e saúdam-se nos seguintes termos:"Shbon al awí",que significa "a Paz seja contigo".
Então,as flores iluminam-se devido a um incrível fenómeno,como se houvesse no interior de cada uma delas uma pequena lâmpada,e produzem sons maravilhosos,sinfonias de indescritível beleza.
Aqui,no planeta que habitamos(e que tão mal tratamos),o Natal perdeu muito do seu verdadeiro sentido.Pelo contrário,em Ahalaum as flores ganham luz própria e os seus habitantes fazem a festa no aconchego dos seus corações.
Shbon al awí!,Amigos.E Feliz Natal.


(1)-A lua de Ahalaum tem à sua volta um anel gasoso que contém todas as cores do arco-íris.

Um singelo poema de Anu,o Gnomo

Florinha azul
pequenina flor
do tamanho de um beijo
dado com Amor.



Florinha azul
humilde e bela
do tamanho
da mais longínqua
estrela.



Florinha azul
doce florinha
pedacinho de céu
amada minha.

O Hino da Paz



Vivia numa pequena cidade do interior e era,segundo se dizia,o homem mais rico do país e um dos mais ricos do mundo.Dedicava-se,a tempo inteiro,ao tráfico de armas.Ou seja:participava,ainda que indirectamente,na morte de milhões de seres humanos.Tinha,pois,uma das mais aberrantes profissões que alguém pode exercer.Amiúde,chegavam às imponentes instalações que possuía nos arredores da cidade enormes camiões,transportando toneladas de pistolas,de espingardas,de metralhadoras e de toda a sorte de artefactos bélicos.Mas,estranhamente,ninguém os via sair a caminho dos muitos campos de batalha que,infelizmente,continuam a existir em vários pontos do planeta.Certamente procederia a essa actividade a coberto da noite,por improváveis remorsos ou por mera estratégia,para não chocar a opinião pública.Espicaçados pela curiosidade,alguns cidadãos decidiram montar guarda nas imediações da sinistra empresa,mantendo-se várias noites em vigília.Contudo,não conseguiram detectar o mais pequeno movimento.Até que,passado algum tempo -e para espanto geral-,o Senhor da Guerra(como era conhecido) abriu de par em par as pesadas portas blindadas,convidando toda a população a franqueá-las.E o certo é que ninguém ficou em casa.Todos se encaminharam para o sinistro armazém num frenesim sem nome.Transposta a entrada,escutou-se,quase em uníssono,uma exclamação de assombro.Porque,em vez das armas que julgavam ir ver,deram de caras com um número quase infinito de instrumentos musicais!Tubas,trombones,clarinetes,harpas,guitarras,violinos,violoncelos,e por aí adiante!Afinal,aquele homem fora comprando,ao longo dos anos,toda a sorte de armas,das mais simples às mais sofisticadas -mas todas elas mortíferas-,para as transformar em magníficos instrumentos musicais!"Agora,meus amigos,pegai no instrumento que mais vos agradar e tocai",pediu-lhes o falso traficante.Assim fizeram e,pouco depois,uma melodia fantástica se elevou daquele lugar,ecoando por toda a parte,até aos confins do Universo.Interpretavam-na milhares de pessoas de todas as idades e condições sociais.E tinha um nome:Hino da Paz.

O Muro

Era um homem de olhar taciturno-com a sombra daquela dolorosa amargura que descobrimos no olhar dos cães abandonados.E vestia andrajos.Cabelo hirsuto,barba crescida,pele curtida pelo implacável látego do tempo.Em suma:um verdadeiro farrapo humano.O lugar onde se encontrava dir-se-ia o cenário de um pesadelo.Limitado,de um lado,por uma montanha escarpada;e,do outro,por um intransponível muro de betão.Até o sol que iluminava aquele antro tinha um brilho baço,doentio,e os seus raios pareciam apodrecer quando espelhados nos inúmeros charcos de água estagnada.O infeliz mantinha-se invariavelmente em silêncio,porque já não tinha forças,sequer,para lamentar a sua desdita.Ali estava,sentado no chão imundo,como se fizesse parte,desde sempre,daquela desolada paisagem.Até que,numa certa manhã,pousou,a poucos metros de si,um corvo.Pelo aspecto,percebia-se que era uma ave bastante velha-no mínimo,centenária;e pelo desassombro com que se aproximou do homem,que não temia a reacção daquela criatura vestida de tristeza.Além disso falava!,como ficou provado no instante seguinte:"Que se passa contigo,bom homem?"Este limitou-se a encolher os ombros,recolhendo-se,de novo,ao seu ensimesmamento.Mas o corvo não desistiu de provocar o diálogo:"Vejo-te muito abatido.Não quererás,acaso,desfiar o rosário das tuas mágoas?Repara:sou um corvo.Se fosse um homem como tu,compreenderia que não quisesses abrir-te comigo,pois vós,humanos,gostais muito de aproveitar a fraqueza dos vossos irmãos para os vexar ainda mais ou para os usar em vosso proveito".Então,soltando um fundo suspiro,o desventurado gemeu:"Tens razão no que acabas de dizer.Fui manipulado pelos outros e pelo meu próprio ego.E quando mais precisava de apoio,lançado para esta lixeira como coisa imprestável".E continuou:"Já fui rico.Muito rico!Tive tudo o que um homem pode desejar-tudo!Mas senti-me sempre infeliz.Por outro lado,nunca pensei que pudesse vir a perder,um a um,todos os bens que amealhei com tanta determinação.Agora,vivo no único lugar que realmente existe:este monturo fétido".O corvo soltou um crocito de desaprovação e,fitando de lado o seu interlocutor,disse-lhe:"Estás completamente enganado,meu amigo.Isto que julgas ser a verdadeira e única realidade não passa de uma miragem gerada pela tua atormentada mente".O homem ia refutar as palavras do corvo,mas este não lhe deu tempo.E bicou energicamente o muro.Perante a estupefacção do infeliz,o que parecia ser uma superfície dura e indestrutível rasgou-se como uma simples folha de papel,pondo a descoberto o que existia do outro lado."Que vejo eu?!",exclamou o homem,esbugalhando os olhos de espanto.E chorando,emocionado(e,aqui,tenho de interromper a narrativa para vos dizer que as lágrimas são rios de água viva que brotam das nascentes dos olhos e desaguam no coração),ampliou o rasgão feito pelo corvo e transpôs o falso muro radiante de felicidade.Belas construções do mais puro cristal erguiam-se para os céus,através da vegetação luxuriante.Jardins magníficos,de flores perfumadas e multicoloridas estendiam-se quase até ao infinito.Aves exóticas enchiam a atmosfera com os seus trinados.E as pessoas que por ali passavam sorriam-lhe amorosamente,enchendo-lhe a alma de júbilo."Estás na Cidade do Ser",revelou-lhe o corvo.Mas o nosso homem já não o escutou.Corria,saltava,cantava,dançava,abraçava toda a gente,e assim desapareceu por entre a multidão.Uma nota final:Se conheces alguém que viva,como o homem desta história,limitado por um "muro",ajuda-o a rasgá-lo e a descobrir,assim,a verdadeira realidade que se esconde dentro de cada um de nós.Que assim seja.

O PAI NATAL CONTA-NOS UM CONTO


A história que vos vou contar -e vos ofereço como prenda de Natal- passou-se numa floresta idêntica a esta em que nos encontramos,e tem como protagonista uma árvore que,de tão torta e mirrada,mais se assemelhava a um humilde arbusto estropiado por uma tempestade.E não me pergunteis que tipo de árvore era e a que espécie pertencia,porque não vo-lo saberia dizer.Repito:era torta e raquítica.E é tudo.Rodeada de imponentes abetos,que cresciam desafiando os céus,e vizinha de um velho e majestoso carvalho,ainda mais se acentuava a sua insignificância.Os abetos mofavam dela.As aves olhavam-na depreciativamente,por não encontrarem nos seus atrofiados ramos espaço onde pudessem construir os ninhos.Era,por assim dizer,o "patinho feio" das árvores daquela floresta.Quando o Inverno chegou,ostentando o seu imponente manto de arminho,e as bagas de azevinho salpicaram de vermelho as matas circundantes,todas as árvores se prepararam para festejar o Natal.Luziriam,com tal propósito,o seu mais requintado verde,e enfeitar-se-iam com a neve que caía abundantemente,unindo-se,assim,aos festejos que se avizinhavam.O próprio carvalho se ornamentaria com os seus apreciados pendentes de bolotas,que depois ofereceria aos gaios e aos javalis,no jeito de opíparas consoadas.E a pobre árvore retorcida e raquítica?...Essa,limitava-se a olhar tristemente para as outras e a suspirar.E,quanto mais expressava a sua mágoa,mais aquelas se empenhavam em humilhá-la,entre risadas escarninhas e sarcasmos.Condoído,o provecto carvalho decidiu que teria de fazer algo em benefício da infeliz.Nas vésperas de Natal -quando até o vento bufador e colérico se comprazia em cantar vilancicos em honra do Menino prestes a nascer-,falou com as aranhas que normalmente teciam as artísticas teias nos seus ramos,e com os pirilampos que,noite após noite,se acolhiam ao amparo da sua folhagem.O que combinou com umas e com outros ficou em segredo.Então,na mais mágica das noites,uma pequena árvore se destacou de todas as outras,fazendo tremeluzir de inveja as próprias estrelas,tão magnificente era o seu brilho!E quando, na manhã seguinte,o Sol voltou a iluminar aquelas paragens,ela continuou cintilante,como se estivesse crivada de diamantes.Perguntar-vos-eis que espantoso milagre aconteceu para que aquela árvore quase informe se tivesse transformado num verdadeiro paradigma de beleza.Eu vo-lo digo...Na tal reunião que teve com os seus pequenos hóspedes,o carvalho pediu às aranhas que tecessem nela uma grande teia que imitasse,o mais possível,a forma dos abetos;e rogou aos pirilampos que,mal anoitecesse,pousassem na teia,cobrindo-a por completo e,obviamente,iluminando-a com as suas lanternazinhas.E assim fizeram.Todos os animais da floresta vieram admirar aquela maravilha nunca antes vista,soltando exclamações de jubiloso espanto.Quando nasceu o novo dia e o sol brilhou no azul do céu,milhares de gotas de orvalho substituiram os pirilampos,brilhando como pedras preciosas,dando,assim,um novo toque de beleza à mal-amada árvore.E foi deste modo que,graças à bondade e ao engenho do velho carvalho,a protagonista da nossa história se transformou no ser mais belo e admirado da floresta!Feliz Natal!

AS BORBOLETAS DO AMOR


Conheço um mundo -situado noutra dimensão,ainda que bem perto do nosso- onde se operam os maiores prodígios.Poderia descrever-vos muitos deles,mas precisaria,certamente,de milhares de páginas para o fazer.Assim,decidi escolher um que,pela sua singeleza,me parece digno de destaque -reservando os restantes para futuras narrativas.Chamar-lhe-ei As Borboletas do Amor.Num edifício bojudo,que parece feito de madrepérola,um número incontável de seres angelicais incumbe-se de enviar para todos os mundos habitados borboletas energéticas,contendo em si os melhores sentimentos e propósitos.Utilizando artísticos cálices de ouro maciço,os excelsos trabalhadores depositam neles porções rigorosamente iguais de alegria,de harmonia,de generosidade,de paciência e de paz.Depois,sopram suavemente o conteúdo e,quase de imediato,este transforma-se em maravilhosas borboletas multicoloridas,as quais voam em busca dos nossos corações.E se os nossos corações estiverem abertos ao Amor,elas alojam-se neles para sempre!Convém esclarecer que estas borboletas não podem ser vistas pelos olhos humanos,porque são feitas de uma matéria muito subtil.Mas pressente-se bem o seu adejar.Sempre que nos sentimos impelidos a sorrir e a agradecer àquela pessoa que nos presta um serviço,a matar a fome a um necessitado,a oferecer flores a quem nos lança pedras,é porque a Borboleta do Amor esvoaça bem perto do nosso coração.E,se a deixarmos entrar,garanto-vos que,um dia,também nós trabalharemos no tal edifício cor de madrepérola,gerando e enviando para toda a parte essas magníficas Borboletas.

COM UM SIMPLES OLHAR

O coelhinho Siriquito passa longas temporadas na acolhedora lura de seus avós.O avô de Siriquito é um grande estudioso da saga do seu povo,iniciada há vários milénios na mítica Coelhândia.Debruçado sobre grossos livros de capas marcadas pelo buril do tempo,ora tirando notas,ora escrevendo longos textos em que põe de manifesto todo o saber acumulado,o velho roedor vai construíndo o grande "puzzle" que é a história da sua espécie desde as mais remotas eras até à actualidade.Precisa,para tal,de muita concentração.Mas quando Siriquito está por perto isso torna-se quase impossível,porque o láparo parece que tem no corpo um exército completo de bichos carpinteiros-generais e carros de combate incluídos."Não perturbes o avô",recomenda-lhe a avó Safira.Mas Siriquito não pára.A páginas tantas,a sua patita cobiçosa tenta apoderar-se de uma lupa.Então,o avô fita-o com uma expressão grave e Siriquito logo detém o gesto.Reparem:Com um simples olhar,o avô coelho "diz" ao neto:"Não pegues na lupa,porque podes danificá-la".Não lhe lançou um grito ameaçador,nem lhe aplicou um tabefe-limitou-se a fitá-lo.E isto faz-nos pensar.Porque a verdade é que não é assim que,na maioria das vezes,nós,os mais velhos,tratamos as crianças.Achamos -do alto da nossa presunção de adultos- que temos o direito de usar a violência(verbal e física) para impormos a nossa vontade -o nosso ridículo poder.Julgamos que é assim que devemos proceder para educar os nossos filhos,os nossos netos,os nossos alunos.E não é.Porque a violência é sempre uma aberração,mesmo que à primeira vista possa parecer necessária e útil.Educar é transmitir Amor-e não se ama vociferando ameaças,prometendo castigos ou dando palmatoadas,mas,sim,explicando firme e serenamente o porquê das nossas decisões,entrando em contacto com os corações dos mais novos.Alguém,após plantar uma árvore,lhe bate para que cresça mais depressa ou para lhe endireitar o ainda frágil tronco?Quem o fizer,sujeita-se a ver a árvore definhar e,provavelmente,secar.Em vez de lhe bater regá-la-á amorosamente,libertá-la-á do cerco de possíveis ervas daninhas;e,no caso de o tronco estar torto,atá-lo-á a uma estaca para que cresça direito.(Notem bem:Ata-o a uma estaca.Não lhe bate com ela...)A agressividade que usamos em relação às crianças poderá parecer-nos justa,racional e tão benéfica como o mais milagroso dos medicamentos;mas,na verdade,não passa de um veneno letal,que a seu tempo produzirá danos irreversíveis,transformando-as em adultos ressentidos,ansiosos,pouco tolerantes,por vezes violentos e intimamente frustrados.Vejam como uma simples história de coelhos acaba por se transformar num sério motivo de reflexão.Caros leitores de todas as idades:A violência(ainda que se limite a uma "inofensiva" reprimenda ou a um "simples" tabefe) é sempre condenável.Começa em nossas casas,na forma de uma minúscula bola de neve,e acaba na de uma massa gigantesca,geradora de lutas fratricidas,de guerras inenarráveis e de todo esse enorme cortejo de misérias que tanto nos assusta e nos deve envergonhar como seres humanos.Sigamos,pois,o exemplo do avô de Siriquito,porque é,sem dúvida,o mais sábio.

OS AMÁVEIS ORVALHADORES

Nos dias mais quentes de Verão-quando a terra fica ressequida e as flores parecem condenadas a murchar sem remédio-,entram em acção os orvalhadores.Com efeito,pouco depois da meia-noite,um verdadeiro exército de pequenos seres sai das entranhas da terra,transportando minúsculos e bojudos recipientes de barro repletos de água.Como sabes,o precioso líquido encontra-se não só à superfície como também no subsolo,mais ou menos ao nível das habitações dos gnomos-que são,como já deves ter adivinhado,os tais orvalhadores.A água é vertida,gota a gota,em folhas de limoeiro e de laranjeira(devido à sua maior impermeabilidade),tocando a cada gnomo a função de a despejar equitativamente sobre as flores sequiosas.Trata-se de um trabalho árduo que apenas termina ao amanhecer;mas os abnegados gnomos fazem-no com determinação e alegria,porque sabem que da sua acção depende a sobrevivência de milhares de flores.No seu afã,não só percorrem toda a floresta como penetram em hortos e jardins,cumprindo assim a sua prestimosa tarefa.Por isso,quando,nas manhãs estivais detectares sobre as pétalas das flores gotinhas de água brilhando à luz dos primeiros raios de sol,agradece mentalmente àqueles que lá as depositaram:os amáveis orvalhadores.

O GNOMO TROMPETISTA

Certo gnomo versado na arte da música percorria quase diariamente um estreito carreiro que ia do coração da floresta até um planalto.Aí chegado,saltava para cima de um cogumelo,respirava fundo e começava a função.O seu repertório era vasto,incluíndo rumbas,tangos,valsas e,quando se sentia particularmente feliz,o contagiante samba dos nossos queridos irmãos Brasileiros.Electrizados pelos sons do instrumento,logo acorriam ao local os habitantes do lugar,movendo as patas com o empenho e a graciosidade do mais consumado bailarino.Dançavam entre si as lebres,tal como as doninhas,os chapins ou outros bichos a quem o corpo pedisse folguedo.Mas,lá está,não gostavam de misturas.Os pares eram sempre formados por membros da mesma espécie.Até que,um belo dia,o nosso gnomo teve uma ideia brilhante.E,antes de levar à boca o trompete,decretou:"Doravante,só toco se trocarem de par".Como não queriam ficar sem baile,todos acataram a condição posta pelo músico.De início,as lebres ficaram renitentes à norma;mas logo a doninha convidou para a próxima dança um parceiro de penas;e até o lobo,que não era muito de se dar com os outros animais,subiu ao planalto e fez rodopiar em passos de valsa a esbelta raposa.E muitos outros animais se chegaram à verdejante pista,para levarem à prática algo que nós,seres humanos,ainda temos receio de fazer,que é misturarmo-nos e convivermos alegre e fraternalmente,sem nos importarmos com a cor da pele,o aspecto físico,a nacionalidade,a religião ou qualquer outro factor que,a princípio,possa diferenciar-nos.Porque a verdade é que somos todos iguais.Somos todos irmãos.Então,dancemos uns com os outros,sem medo nem preconceitos.Tomemos todos parte neste fantástico baile que é a vida.Vamos,amigo trompetista!Toca!Toca!E que cada dia seja para todos nós uma verdadeira festa,com muitos abraços,muitos beijos e muita ternura.

A DOCE FADA LYANA


Num lugar recôndito da floresta,leva-se a efeito uma das mais complicadas e apaixonantes tarefas que uma fada pode exercer:a da criação de novas flores.Assim,a fada escolhida para desempenhar esse mister tem,primeiro,de desenhar a flor,inventando um padrão completamente novo,que os gnomos versados em botânica e noutras ciências afins se encarregarão de reproduzir.É,como já disse,um trabalho deveras difícil,porque criar uma flor que seja completamente diferente de todas as outras-e é quase infinita a sua diversidade!-exige uma enorme imaginação,aliada a uma refinadíssima sensibilidade.Por isso,a escolhida para desempenhar tais funções é Lyana-uma fada amorosa,diligente e de uma criatividade inigualável,de cujas mãos têm saído os mais belos espécimes de flores que enchem de cor e perfume as clareiras da floresta.À primeira vista dir-se-á que é diferente das outras.Haverá,até,quem não a ache bonita,por olhar para ela de uma maneira superficial.Mas se a olhar com os olhos da alma,verá que não só é lindíssima como suscita em nós a vontade de a abraçar ternamente,de lhe dedicar uma canção ou um poema,e sobretudo de aprender com ela.Em suma:de a receber festivamente em nossos corações.Porque é assim que deve ser.

A MENSAGEM DE MUKNUMANI

Os gnomos também oferecem presentes pelo Natal,porque adoram associar-se a todas as festas em que se enalteça o Amor.Recebi de Muknumani-que é,como já escrevi,o mais sábio,o mais bondoso e o mais talentoso de todos os gnomos- a Mensagem que aqui vos deixo com toda a ternura,juntamente com uma parte do pergaminho no qual a mesma foi escrita.

O TEXTO DA MENSAGEM

"Querido Amigo:Procura conhecer o verdadeiro sentido das palavras-observa-as como se fossem catedrais com as suas perfeitas estruturas-,e verás que elas têm no seu âmago abelhas de oiro que produzem ininterruptamente o mel que gera as medidas druídicas com as quais se desenham os caracteres e os cabalísticos números do Conhecimento.Sê humilde.Deseja ardentemente ser criança.Debruça-te sobre os sábios carreiros das formigas e deixa que os teus olhos se maravilhem até às lágrimas.Apreende os pássaros pelo bater das suas asas e o rumor das pedras quando a Luz Criadora as penetra.Aprende a ver o Invisível:As tilintantes revoadas das minúsculas fadas sobre as lagoas prateadas dos bosques;as flautas cintilantes das rãs e as suas verdes fardas de gala;o requintado casaco da raposa e as negras vestes do experiente corvo;a litania das cigarras e as risadas infantis das margaridas;o manso assobio das ervas quando a brisa as embala;e a nudez branca da recatada rola no seu florido dossel enfeitiçada.Abre os teus olhos,respira fundo e ama.MUKNUMANI"

EM NOME DA VIDA


Xavar-o velho javali-escutava com crescente nitidez os latidos excitados dos cães e o vozear dos caçadores.Sabia que,fosse para onde fosse,seria inexoravelmente descoberto e abatido.E pôs-se a recordar o que fora a sua vida naquela serra onde nascera e onde sempre vivera.Era pai de várias gerações de javalis-muitos dos quais mortos por aqueles ou outros caçadores que todos os anos calcorreavam aquelas paragens,de armas em punho e sorrisos alarves,como se estivessem não a cometer actos criminosos,mas a escrever,a tiros de zagalote,um poema de amor à Mãe Natureza e às suas Criaturas.Depressa ficou cercado pelos cães que,de dentes arreganhados,procuravam,em sucessivos ataques,dilacerar-lhe a carne.Ainda tentou fugir,buscando um hipotético esconderijo onde pudesse,como que num passe de mágica,furtar-se aos ardentes pedaços de chumbo que lhe fizeram surgir por todo o corpo pequenas flores de sangue.Turvou-se-lhe a vista e tombou sobre um tapete de giestas e urzes.Depois,respirou fundo e exalou o último suspiro,pacificamente,indiferente ao encarniçamento dos cães e aos dichotes dos caçadores.Com a morte de Xavar,os pássaros silenciaram o seu canto e toda a natureza envolvente se ensimesmou,como que expressando ao javali brutalmente assassinado o seu profundo pesar.Jovem Leitor:Se pensas-quando chegares à idade adulta-dedicar-te a essa prática abominável a que muitos chamam desporto,pára para pensar.Será que os animais silvestres foram tão amorosamente criados por Deus para exercitarmos,à sua custa,os nossos piores instintos?Ou tê-los-á criado para enriquecer o planeta que habitamos e tornar ainda mais grandiosa esta saga magnífica que é o contínuo Acto da Criação?Devemos ser sempre pela Vida.E,se quisermos caçar-se sentirmos em nós esse apelo atávico proveniente de um tempo em que éramos selvagens-,façamo-lo usando,em vez das mortíferas armas,máquinas fotográficas,e guardemos não as pobres carcaças dos animais mortos,mas as suas imagens plenas de vitalidade e de incomparável beleza.Que assim seja.

PARA MEDITAR

Carta do Chefe Índio Seattle

Em Janeiro de 1854,o Chefe Índio Seattle(Ts'ial-la-kum), dos Suquamish e dos Duwamish, enviou,ao então Presidente dos EUA,Franklin Pierce,que pretendia comprar uma imensa faixa territorial de sua tribo(prometendo,em troca,"uma reserva"),a seguinte carta:


Como podeis vós comprar ou vender o céu,o calor,a terra?Se nós possuíssemos a frescura do ar e a frescura da água,de que maneira poderia Vossa Excelência comprá-los?Cada pedaço dessa terra é sagrado para o meu povo.Cada agulha de pinheiro,cada rio murmurante,cada bruma nos bosques,cada clareira,cada zumbido de insecto é sagrado na lembrança e na vivência do meu povo.Nós somos uma parte da terra,e ela faz parte de nós.As flores perfumadas são nossas irmãs;o cervo,o cavalo,a grande águia,são nossos irmãos.As rochas escarpadas,o aroma das pradarias,o ímpeto dos nossos cavalos e o homem todos são da mesma família.Assim,o Grande Chefe de Washington,mandando dizer que quer comprar a nossa terra,está pedindo de mais a nós índios.Manda o Grande Chefe dizer que nos reservará lugares onde poderemos viver confortavelmente entre nós.Ele será nosso pai e,nós,seus filhos.

Prometemos pensar na vossa ideia de comprar a nossa terra.Mas não será fácil,pois essa terra para nós é sagrada.A água cintilante que corre nos riachos e rios não é só água,mas,também,o sangue dos nossos antepassados.Os rios são nossos irmãos.Eles saciam a nossa sede,levam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos.Se nós vendermos a nossa terra,vós deveis lembrar-vos e ensinar os vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também vossos,e vós deveis doravante dar aos rios a ternura que mostrais para um irmão.Sabemos que o homem branco não entende os nossos costumes.Um pedaço de terra para ele é igual ao pedaço da terra vizinha,pois é um estranho que chega,às escuras,e se apossa da terra de que tem necessidade.A terra não é sua irmã,mas sua inimiga,e uma vez conquistada,o homem branco vai mais longe..O seu apetite arrasará a terra e não deixará nela mais que um deserto.Não sei,os nossos costumes são diferentes dos vossos.A imagem das vossas cidades faz mal aos olhos do homem vermelho.Mas,isso talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não entende.Não há mais lugares calmos nas cidades dos homens brancos;a barulheira parece estourar os ouvidos.O índio prefere o doce assobio do vento lançando-se como uma flecha sobre o espelho de um lago,e o aroma da terra molhada pela chuva ou perfumada pelo pinheiro.O ar é precioso ao homem vermelho,pois todas as coisas participam do mesmo sopro-o animal,a árvore,o homem.Eles compartilham todos o mesmo sopro.O homem branco parece não se lembrar do ar que respira.


O vento,que deu ao nosso avô o primeiro fôlego,recebeu,também,o seu último suspiro.Pensaremos,portanto,na vossa oferta de comprar as nossas terras.Mas,se decidirmos aceitá-la,eu porei uma condição:o homem branco deverá tratar os animais selvagens como irmãos.Vi mais de mil bisontes apodrecendo nos campos,abandonados pelo homem branco,que os abateu de um comboio que passava.O que é o homem sem os animais?Se os animais desaparecerem,o homem morrerá de uma grande solidão.Ensinai também aos vossos filhos aquilo que ensinamos aos nossos:que a terra é nossa mãe.Dizei-lhes que a respeitem,pois tudo o que acontecer à terra,acontecerá aos filhos da terra.Quando os seus homens cospem no chão,cospem sobre eles mesmos.Ao menos sabemos isto:a terra não é do homem;o homem pertence à terra.Todas as coisas são dependentes.Não foi o homem que teceu a teia da sua vida;ele não passa de um fio desta teia.Tudo o que ele fizer por esta teia,estará fazendo para si mesmo.Há uma coisa que sabemos,e que o homem branco descobrirá,talvez,um dia:é que o nosso Deus é o mesmo Deus,e a sua piedade é igual,para o homem vermelho e o homem branco.Esta terra é-lhe preciosa,e danificá-la é cumular de desprezo o seu Criador.

FALEMOS DE TERNURA


Caminhando,um destes dias,pela Floresta Venturosa em companhia de um gnomo amigo(sentado no meu ombro e segurando-se ora ao meu cabelo ora a uma das minhas orelhas,para manter o equilíbrio...),chamei-lhe a atenção para a magnífica festa que é o acontecer de cada Primavera,com as flores brotando por toda a parte,os pássaros construíndo os ninhos numa azáfama constante e,um pouco mais tarde,o nascimento de uma nova geração de bichos-todos eles amorosos,mesmo os de espécies que parecem,à partida,menos belas;todos eles transmitindo-nos uma imensa ternura.E,estando nestes considerandos,lembrei-me de um coelhito que tive,cego e paralítico de nascença,e que eu retirava,todos os dias,da coelheira que compartilhava com sua mãe e irmãos,e transportava,cuidadosamente,até uma campinazinha de erva muito verde e tenra,para que pudesse,ao menos,desfrutar dos afagos do Sol e sentir,apesar das suas tremendas limitações,um lampejo de liberdade.Morreria pouco depois,o pobrezinho,mas durou o tempo suficiente para fortalecer em mim a semente da ternura-desse sentimento manso e aveludado que se exprime através de uma carícia,de um beijo,de um gesto solidário ou de uma palavra amiga.Ou,por outras palavras,essa alegria transbordante que sentimos quando acendemos estrelas no coração dos outros.

SAPATINHOS DE FADA

Contou-me,um destes dias,uma pessoa amiga que,andando na floresta com sua mulher a colher cogumelos,se deparou,a certo trecho,com algo que a fez arregalar os olhos,esfregá-los repetidas vezes e,finalmente,soltar um longo "ooooh" de espanto:Ali,mesmo à sua frente e poisados numa folha,estavam os sapatos mais pequenos que alguma vez vira!Mediria,cada um deles,no máximo,um centímetro e meio!A companheira,que andava por perto,correu,de imediato,para o marido que,muito pálido,apontava, em silêncio e com o dedo trémulo,o incrível achado.E também ela soltou uma exclamação de verdadeiro assombro.Nesse instante,porém,ambos se sentiram dominados por um estranho e súbito cansaço,uma fraqueza sem limites,desfalecendo ou adormecendo de imediato,sem sequer repararem na nuvem verde,com laivos doirados,que sobre eles pairava.O certo é que só acordaram cerca de três horas mais tarde!Entreolharam-se,sem proferir palavra,e apressaram-se a deixar,em passadas ainda trôpegas,aquele lugar enfeitiçado.E que foi feito dos sapatinhos?A verdade é que só se lembraram deles quando já estavam em casa.Teriam compartilhado o mesmo sonho?...Sinceramente,penso que não.Acredito piamente que viram os tais sapatinhos.E,por isso mesmo,decidi recriá-los, seguindo as instruções de quem os viu,para vos dar a conhecer tão fantástica experiência.

MUKNUMANI

Os gnomos não contam os anos como nós.Aliás,nem se preocupam com isso!Todos eles têm missões específicas a cumprir e,por esse facto,não lhes sobra muito tempo para essas minudências.O gnomo mais velho da Floresta Venturosa(para usar a linguagem humana) tem,sem exagero,mais de quatrocentos anos!É verdade!A longevidade destes seres só é comparável à de algumas árvores e animais(as oliveiras e os corvos,para dar,apenas dois exemplos).Falo-vos de Muknumani-o mais sábio,mais bondoso e mais talentoso de todos os gnomos.Não há ofício que ele não domine,nem planta ou raíz de cujas qualidades curativas não saiba tirar proveito.Creio que não há nada que ele não conheça.Perdão!Uma coisa há:O ódio.Esse,é um sentimento para ele completamente desconhecido.Por isso,detesta a violência.Toda e qualquer espécie de violência.Quando pressente a presença de caçadores na floresta,o seu coração afligue-se e sangra de dor pelos animais cruelmente abatidos.Ele não entende como é que nós,seres humanos(dotados,também,de coração),somos capazes de abater animais indefesos.E muito menos entende que nos matemos uns aos outros,em nome de uma pátria,de uma religião ou seja do que for.Muknumani faz-me recordar um sábio chinês chamado Lao-Tsé,segundo o qual a beleza da vida está na não-violência.Essa beleza é a do amor,a do perdão.Os chefes deste mundo continuam a dizer-nos:"Sede fortes".Mas,Lao-Tsé,diz-nos:"Sede fracos".Ou seja:Não luteis uns contra os outros.Não vos odieis.Perdoai a quem vos magoar ou ofender.Abraçai os que se declarem vossos inimigos.Assim é Muknumani-o gnomo mais velho da floresta.E assim devemos ser todos nós,olhando a vida com alegria e ternura e avançando para o futuro não com a força dos tanques ou dos aviões de combate,mas com a suavidade das garças que escrevem poemas de luz na calma superfície dos lagos.E o mundo será,então,tão cálido e luminoso como o coração de Muknumani.

UM AMIGO ÍMPAR!

Harmony é o amigo de todas as horas-aquele que está sempre presente nos melhores e nos piores momentos.Pura invenção do autor?Nem por sombras!Ele existe e é tão verdadeiro como a própria realidade.Podeis imaginá-lo:Pequenino,loiro como o trigo maduro,com um olhar terno e uma estrelinha brilhando-lhe na testa.Quando estiverdes tristes,fechai os olhos e pensai em Harmony.Escutai atentamente o que ele vos diz.Vereis como essa estrelinha passa para a vossa própria testa.E,então,sentir-vos-eis envoltos por um calor muito doce e,de seguida,por uma imensa alegria,feita de música e de luzinhas de todas as cores!Se tiverdes alguma dor,sentai-vos num sítio confortável,fechai os olhos, imaginai a estrelinha de Harmony voando para a vossa testa e repeti,calma e cadenciadamente:Está a passar,está a passar,está a passar...E,num curto espaço de tempo,a dor que tínheis desaparecerá por completo,graças à sua ajuda.Nunca vos esqueçais de recorrer a ele.Porque,apesar da sua frágil aparência,é todo-poderoso e sábio!

Os Meninos Loiros de Além-Mundo


Imaginemo-nos a passear na floresta ou caminhando esforçadamente pelo alto de uma montanha...De súbito,vemos refulgir,por entre a vegetação ou junto a um rochedo,algo que nos faz pensar em oiro puro.Paramos,avançamos pé ante pé,e...que vemos?Um menino de cabelos loiros e rosto de porcelana que nos fita com um olhar inteligente.E percebemos,atónitos,que nos fala por telepatia,ou seja,que a sua voz soa não aos nossos ouvidos mas directamente na nossa mente!A princípio,não sabemos se havemos de ficar ali,em presença daquele ser tão singular,ou dar corda aos sapatos!Mas ficamos(porque nos sentimos como que enfeitiçados).E o menino 'diz-nos'que não devemos temê-lo,pois não pretende fazer-nos nenhum mal.Explica-nos que vem de Além-Mundo,de um lugar fabuloso situado noutra dimensão;e,se soubermos escutá-lo,falar-nos-á das coisas boas que estão para nos acontecer,porque-é bom que se saiba-eles são mensageiros,exclusivamente,de boas-novas.Acontece,também,que a sua presença significa a existência de riquezas no subsolo do lugar!Explicou-me um velho pastor de muitos rebanhos que,se quisermos contactar esses meninos maravilhosos e pedir-lhes algum favor,devemos colher,para o efeito,uma bolota acabada de cair do mais frondoso carvalho que encontrarmos,embrulhando-a,de seguida,juntamente com flores de alfazema,num paninho de linho previamente lavado com gotas de orvalho e secado ao sol do meio-dia.Para formularmos o pedido,desembrulhamos a bolota,colocamo-la na palma da mão direita e repetimos,três vezes,"Menino d'Oiro,eu te peço",juntando a estas palavras a descrição do que pretendemos e agradecendo,no final,da seguinte maneira:"Menino d'Oiro,eu te agradeço tamanho tesoiro".Mas,atenção:Só nos escutará se o que lhe perdirmos for para ajudar o próximo ou algum animal em apuros!Eles detestam o egoísmo e a ambição desmedida e,por isso,apenas premeiam a generosidade.Ainda segundo o tal pastor,a felicidade que sentimos quando encontramos um desses meninos é tão grande,tão grande,que,de repente,parecer-nos-á que o Sol deixou a imensidão dos céus e se veio instalar bem dentro dos nossos corações!...

A LENDA DAS BORBOLETAS DE LUZ


Conta a lenda que,em pontos opostos da Floresta Venturosa -e separados por um rio de águas cristalinas-,viveram,há muitos séculos,dois poderosos senhores cujos filhos se amavam perdidamente.Jaahz-o filho de um deles- era um intrépido cavaleiro,tão bom a montar e a pelejar como a escrever versos.Dihili-a filha do outro senhor- era uma jovem belíssima,de longos cabelos negros,cuja voz,de tão maviosa,possuía o condão de fazer recobrar o viço às flores murchas e de fazer vibrar,com mais intensidade,todas as estrelas do firmamento.Ora acontece que os pais de ambos se odiavam mortalmente.Por esse lamentável facto,os jovens só podiam comunicar-se à distância,trocando mensagens apaixonadas.Jaahz enviava à sua amada longos poemas escritos em folhas de pergaminho que um diligente martim-pescador transportava no bico até à janela onde Dihiili ansiosamente o aguardava.E esta respondia-lhe fitando a Lua com os seus olhos aveludados e cantando com aquela voz profunda e mágica que dir-se-ia provir do próprio Paraíso.E as notas das melodias que entoava transformavam-se em borboletas de luz,que partiam pelos ares até aos aposentos do seu amado,rodopiando em torno dele em intrincados bailados.Um dia,porém,Jaahz partiu para a guerra e não mais voltou.Dihiili soube-o porque o martim-pescador a visitou por derradeira vez,trazendo no bico um pergaminho onde podia ver-se uma gota de sangue em forma de coração.Mas,apesar dessa fatalidade,a doce donzela não deixou de cantar para o seu amado.Por isso,ainda hoje,quando um viajante atravessa a Floresta Venturosa,não raro é surpreendido por uma imensa e luminosa revoada daquilo que ele pensa ser simples pirilampos.Mas não:são as notas das melodias que Dihiili entoa,transformadas,como outrora,em borboletas de luz,provando assim que o amor,quando verdadeiro,é eterno.

A Canção do Lobo Solitário

Numa aprazível tarde de Outono,quando o pincel da Mãe Natureza coloria de vermelho e ouro as copas das árvores da grande floresta,um lobo solitário surgiu inesperadamente na clareira onde,no fim de cada tarde,se reuniam todos os animais amantes do "bel canto",para escutarem,enlevados,os trinados do famoso Quarteto de Melros.Quando o viram,os coelhos,os texugos,as gazelas e outros bichos de pequeno porte trataram de se refugiar rapidamente nas suas tocas,não fosse o recém-chegado devorá-los.Só ficou para o receber um frágil rato que,por sofrer de artrite,estava impedido de acelerar o passo."Não me faças mal",implorou ele ao lobo.Este,fitou-o com um olhar grave,de quem carregava sobre o lombo um sem-fim de preocupações,e disse:"Não temas.A verdade é que não tenho o mínimo apetite.Nós,os lobos,só caçamos quando temos fome.Não o fazemos por mero capricho,como os humanos".Mais descansado,o rato arriscou:"Que fazes por aqui,longe do teu território e da alcateia?"A expressão do lobo tornou-se ainda mais sombria:"Já não tenho território nem alcateia.Os seus membros-incluíndo a minha fêmea e os nossos filhotes-foram abatidos pelas balas assassinas dos homens e pelas suas traiçoeiras armadilhas.Restei,apenas,eu.Sei que do outro lado desta floresta há um lugar pacífico,de difícil acesso-uma montanha que as nuvens sempre acariciam-, onde talvez possa viver em paz até ao fim dos meus dias".O rato limpou uma lágrima emocionada e falou assim para o lobo:"Apesar do temor que nos provocas,acredita que temos por ti a maior consideração".Mas o lobo já não pôde ouvir essas palavras.De olhos postos na imponente montanha,encaminhou-se para ela levado por uma grande esperança,tal como se avançasse para o próprio Éden,que é um lugar onde,como sabeis,a maldade humana não penetra.E,enquanto corria,veio-lhe à lembrança a canção que seu pai-o lobo Alfa de uma inesquecível alcateia-uivava nas noites em que a Lua cobria com o seu manto de prata os cumes da montanha onde viviam:"Um dia partirás/nos braços do irmão vento/e,de estrela em estrela,/chegarás à intemporal planície,/onde te aguarda,amoroso,o Grande Espírito".

A CORÇAZINHA QUE EU QUIS

A propósito do sonho de que vos falei anteriormente ou,para ser mais exacto,da minha amiguinha Chispa,vou revelar-vos o seguinte:Quando nós queremos com muito empenho e do fundo do coração que um certo desejo que acalentamos se transforme em realidade,isso acaba sempre por acontecer,ainda que,por vezes,não nos apercebamos do facto.Parece magia,não é verdade?Mas é que a realidade-ao contrário do que muita gente pensa-é mágica!Só não o é quando nós,por causa das nossas atitudes negativas,a transformamos numa coisa desinteressante.Ora acontece que a Chispa foi,exactamente,a concretização de um dos meus mais ardentes desejos.Eu explico.No já longínquo ano de 1952-tinha,então,cinco anos de idade-,fui ao cinema com a minha família,para assistir a um filme norte-americano intitulado The Yearling(na versão portuguesa "Despertar").O filme em questão,rodado em 1946,inspirava-se no romance homónimo de Marjorie Kinnan Rawlings,no qual a autora contava a história da família Baxter-gente voltada,essencialmente,para a agricultura de subsistência.Mas o que sobressaía nela era o amor que Jody,filho dos Baxter,dedicava a Flag-uma corçazinha que ele próprio adoptara após Mr.Baxter ter abatido sua mãe,durante uma caçada.Confesso que o final de "Despertar" me magoou,por ser um pouco triste.Mas o que verdadeiramente interessa é que o seu lado feliz me marcou de tal maneira que,a partir daí,só pensei em ter uma corça igual à de Jody.Tratava-se de um desejo cuja concretização parecia ser,à partida,de todo impossível.Mas...sê-lo-ia mesmo?No lugar onde eu vivia não havia corças;nem teria espaço suficiente para ter uma em condições aceitáveis.As corças são animais que devem viver em total liberdade e,para tal,eu teria de residir no meio de uma grande floresta,tal como os Baxter,o que não era o caso.Um dia,porém,uma tia minha enviou-me da sua Galiza natal uma adorável cadelinha-a Chispa-,cuja cabeça-redonda,com grandes orelhas pontiagudas e um olhar doce como o mel-se parecia muito com a das corças!E foi desse modo que o meu desejo se realizou e pude,inclusivamente,imaginar que era o Jody(apesar de o meu cabelo ser da cor das penas dos corvos)e que a Chispa era Flag-a sua amiga corça!Ah!Nem imaginam as aventuras que ambos tivemos e como nos divertimos!...

UM SONHO FELIZ

Antes da chegada do plástico,era na fábrica de serração do meu avô Manuel que se faziam as embalagens utilizadas pelas mais importantes firmas nacionais ligadas à produção de margarinas,detergentes,etc.,.Deambulando,um dia,pelo escritório da empresa,descobri uns lápis enormes,prateados e com uma mina em cada extremidade:uma vermelha e a outra azul.Se bem me lembro,esses lápis eram usados para apontar,em pequenos e compactos cadernos de linhas,determinados pormenores técnicos ligados ao corte dos grandes toros de madeira que se amontoavam,como estranhas pirâmides,ao longo do recinto fabril.Ora,era nas tábuas já serradas e destinadas às embalagens-as que haviam sido postas de parte,por serem imperfeitas-que eu desenhava,utilizando para o efeito os tais lápis de duas minas.Mas,por que razão trago à baila essa longínqua recordação?Simplesmente porque,numa destas noites,tive um sonho tão assombrosamente real e emocionante que,por muitos anos que ainda viva,o não vou esquecer.Surgindo de uma espécie de neblina dourada,o meu Pai-que já partiu deste mundo-sorriu-me e mostrou-me o que parecia ser uma folha de papel,na qual alguém desenhara uma flor,socorrendo-se de um desses lápis que eu utilizava quando era criança.E fez-me saber-por linguagem telepática-que o desenho que ali via fora feito pela Chispa,uma cadelinha Rat Terrier que me acompanhou ao longo de quase toda a infância e adolescência.Segundo a opinião de reputados médiuns internacionais,o facto de os nossos animais de companhia compartilharem connosco a existência,faz com que ganhem consciência de si próprios e adquiram um grau de espiritualidade idêntico ao de uma criança de tenra idade.Isso faz-me pensar que se tratou não de um mero sonho,mas de um facto real,acontecido noutra dimensão,fortalecendo em mim a certeza de que,um dia,quando eu próprio fizer a grande viagem,me irei encontrar com a minha queridíssima Chispa,e percorrer com ela os luminosos,coloridos e perfumados campos da Eternidade.