
Xavar-o velho javali-escutava com crescente nitidez os latidos excitados dos cães e o vozear dos caçadores.Sabia que,fosse para onde fosse,seria inexoravelmente descoberto e abatido.E pôs-se a recordar o que fora a sua vida naquela serra onde nascera e onde sempre vivera.Era pai de várias gerações de javalis-muitos dos quais mortos por aqueles ou outros caçadores que todos os anos calcorreavam aquelas paragens,de armas em punho e sorrisos alarves,como se estivessem não a cometer actos criminosos,mas a escrever,a tiros de zagalote,um poema de amor à Mãe Natureza e às suas Criaturas.Depressa ficou cercado pelos cães que,de dentes arreganhados,procuravam,em sucessivos ataques,dilacerar-lhe a carne.Ainda tentou fugir,buscando um hipotético esconderijo onde pudesse,como que num passe de mágica,furtar-se aos ardentes pedaços de chumbo que lhe fizeram surgir por todo o corpo pequenas flores de sangue.Turvou-se-lhe a vista e tombou sobre um tapete de giestas e urzes.Depois,respirou fundo e exalou o último suspiro,pacificamente,indiferente ao encarniçamento dos cães e aos dichotes dos caçadores.Com a morte de Xavar,os pássaros silenciaram o seu canto e toda a natureza envolvente se ensimesmou,como que expressando ao javali brutalmente assassinado o seu profundo pesar.Jovem Leitor:Se pensas-quando chegares à idade adulta-dedicar-te a essa prática abominável a que muitos chamam desporto,pára para pensar.Será que os animais silvestres foram tão amorosamente criados por Deus para exercitarmos,à sua custa,os nossos piores instintos?Ou tê-los-á criado para enriquecer o planeta que habitamos e tornar ainda mais grandiosa esta saga magnífica que é o contínuo Acto da Criação?Devemos ser sempre pela Vida.E,se quisermos caçar-se sentirmos em nós esse apelo atávico proveniente de um tempo em que éramos selvagens-,façamo-lo usando,em vez das mortíferas armas,máquinas fotográficas,e guardemos não as pobres carcaças dos animais mortos,mas as suas imagens plenas de vitalidade e de incomparável beleza.Que assim seja.