Das raposas não há mal que não se diga,sublinhando-se sempre a sua proverbial matreirice.E,evidentemente,a voracidade...!Com efeito,bicho pequeno que encontrem -desde os arganazes até aos coelhos-,tudo lhes serve de pitéu.E,se a fome apertar,nem os insectos lhes escapam!!Claro que também comem frutos,tais como framboesas,mirtilos ou cerejas silvestres;mas o que conta,realmente,para a definição que delas fazemos,é o facto de,por vezes,penetrarem nos galinheiros e devorarem as aves domésticas.Esta atitude que temos em relação às raposas faz-me lembrar a que mantemos em relação às pessoas:"Sim,aquela pessoa é muito simpática,mas..."(e lá vem a lista de defeitozinhos).A verdade é que ninguém é perfeito-e as raposas,como é óbvio,também não.Mas deixemo-nos de considerandos(ou de raposices...) e debrucemo-nos sobre esta história(que uma coruja me contou,por dela ter sido testemunha silenciosa)passada entre um jovem raposo e uma coelha muito velha-tão velha,imaginem,que já só tinha um dente!Ora acontece que,numa certa manhã,indo o raposinho caminhando pela floresta,deu de caras com uma coelha que,dobrada sob o peso dos anos,se lamentava amargamente,enquanto procurava,a todo o custo,que as trôpegas patas lhe obedecessem.O raposinho não comia há mais de um dia,e aquela coelha vinha mesmo a calhar!Talvez a sua carne fosse muito rija;mas a fome,quando é verdadeira,não perde tempo com tais minudências...Ao ver-se perante aquele eterno "inimigo",a velha coelha pensou que chegara o fim do seu penar nesta terra.E,em vez de ficar apavorada,até agradeceu mentalmente à Mãe Natureza pela possibilidade que lhe dava de pôr termo a tanto sofrimento.Porém,enganava-se redondamente,porque o jovem raposo,em vez de se lançar sobre ela e lhe cravar os aguçados dentes,olhou-a com uma expressão compassiva,ao mesmo tempo que lhe perguntava:"Precisa de ajuda,avozinha?"Será que já morri sem dar por isso e estou no Paraíso?,interrogou-se a coelha,surpreendida com a atitude do raposo.Mas não:estava,ainda,do lado de cá da Vida!"Não deve andar sozinha pela floresta",disse-lhe o raposinho."Fraca como está,não poderá fugir se alguém lhe quiser fazer mal",concluiu .E que fez a seguir?Ajudou a anciã a caminhar,amparando-a gentilmente,e conduziu-a até ao seu covil."Aqui,ficará em segurança",garantiu-lhe.E,a partir desse dia,a coelha não mais precisou de se preocupar com a sua sobrevivência.O raposinho trazia-lhe braçadas de erva muito tenra,de viçosas leitugas e de água que recolhia nas "tacinhas" das glandes dos carvalhos.Passaram-se os meses e nunca o nosso raposinho deixou de cuidar da cada vez mais velhinha e decrépita hóspede.Até ao dia em que esta exalou o último suspiro.Os seus olhos ficaram parados,como estrelas que,de súbito,deixassem de tremeluzir,fixando o seu benfeitor com uma expressão de profunda serenidade.Este,pegou,piedosamente,no corpo da coelha e transportou-o para um lugar da floresta onde cresciam as framboesas.Depois,cavou com as suas próprias patas uma cova,depositou no seu interior a defunta,tapou-a cuidadosamente e pôs,sobre a pequena campa,algumas flores silvestres,das mais bonitas que encontrou."Descansa em paz",murmurou ele,limpando com a pata aveludada uma grossa lágrima.E é que,por muito incrível que pareça,as raposas também choram.
A VERDADEIRA COMPAIXÃO
Das raposas não há mal que não se diga,sublinhando-se sempre a sua proverbial matreirice.E,evidentemente,a voracidade...!Com efeito,bicho pequeno que encontrem -desde os arganazes até aos coelhos-,tudo lhes serve de pitéu.E,se a fome apertar,nem os insectos lhes escapam!!Claro que também comem frutos,tais como framboesas,mirtilos ou cerejas silvestres;mas o que conta,realmente,para a definição que delas fazemos,é o facto de,por vezes,penetrarem nos galinheiros e devorarem as aves domésticas.Esta atitude que temos em relação às raposas faz-me lembrar a que mantemos em relação às pessoas:"Sim,aquela pessoa é muito simpática,mas..."(e lá vem a lista de defeitozinhos).A verdade é que ninguém é perfeito-e as raposas,como é óbvio,também não.Mas deixemo-nos de considerandos(ou de raposices...) e debrucemo-nos sobre esta história(que uma coruja me contou,por dela ter sido testemunha silenciosa)passada entre um jovem raposo e uma coelha muito velha-tão velha,imaginem,que já só tinha um dente!Ora acontece que,numa certa manhã,indo o raposinho caminhando pela floresta,deu de caras com uma coelha que,dobrada sob o peso dos anos,se lamentava amargamente,enquanto procurava,a todo o custo,que as trôpegas patas lhe obedecessem.O raposinho não comia há mais de um dia,e aquela coelha vinha mesmo a calhar!Talvez a sua carne fosse muito rija;mas a fome,quando é verdadeira,não perde tempo com tais minudências...Ao ver-se perante aquele eterno "inimigo",a velha coelha pensou que chegara o fim do seu penar nesta terra.E,em vez de ficar apavorada,até agradeceu mentalmente à Mãe Natureza pela possibilidade que lhe dava de pôr termo a tanto sofrimento.Porém,enganava-se redondamente,porque o jovem raposo,em vez de se lançar sobre ela e lhe cravar os aguçados dentes,olhou-a com uma expressão compassiva,ao mesmo tempo que lhe perguntava:"Precisa de ajuda,avozinha?"Será que já morri sem dar por isso e estou no Paraíso?,interrogou-se a coelha,surpreendida com a atitude do raposo.Mas não:estava,ainda,do lado de cá da Vida!"Não deve andar sozinha pela floresta",disse-lhe o raposinho."Fraca como está,não poderá fugir se alguém lhe quiser fazer mal",concluiu .E que fez a seguir?Ajudou a anciã a caminhar,amparando-a gentilmente,e conduziu-a até ao seu covil."Aqui,ficará em segurança",garantiu-lhe.E,a partir desse dia,a coelha não mais precisou de se preocupar com a sua sobrevivência.O raposinho trazia-lhe braçadas de erva muito tenra,de viçosas leitugas e de água que recolhia nas "tacinhas" das glandes dos carvalhos.Passaram-se os meses e nunca o nosso raposinho deixou de cuidar da cada vez mais velhinha e decrépita hóspede.Até ao dia em que esta exalou o último suspiro.Os seus olhos ficaram parados,como estrelas que,de súbito,deixassem de tremeluzir,fixando o seu benfeitor com uma expressão de profunda serenidade.Este,pegou,piedosamente,no corpo da coelha e transportou-o para um lugar da floresta onde cresciam as framboesas.Depois,cavou com as suas próprias patas uma cova,depositou no seu interior a defunta,tapou-a cuidadosamente e pôs,sobre a pequena campa,algumas flores silvestres,das mais bonitas que encontrou."Descansa em paz",murmurou ele,limpando com a pata aveludada uma grossa lágrima.E é que,por muito incrível que pareça,as raposas também choram.
A VINGANÇA DO BESOURO FELIZARDO
"Hoje,tenho um dia muito preenchido",disse o gnomo Agrimindo,acariciando as longas barbas brancas."Vais apanhar casca de vidoeiro?",perguntou-lhe Nhuxa,sua mulher há mais de cem anos.Agrimindo sorriu-lhe ternamente,fez que sim com a cabeça e,voltando-se para Ranu-o filho mais novo do casal-,pediu-lhe:"Cuida bem das árvores durante a minha ausência".Devo esclarecer que Agrimindo tinha por missão tratar da conservação das árvores da floresta-o que fazia com todo o saber e autoridade.Mas,esse,era um dia especial,porque tinha de colher casca de vidoeiro para preparar um chá de beleza para a sua amada esposa,que era uma senhora muito coquete.Após a partida do pai,Ranu apressou-se a cumprir a sua tarefa.Mal chegou ao pé de um certo castanheiro de belo porte,logo se apercebeu de que andava por ali,zumbindo como um doido,o besouro Felizardo.O nosso amigo gnomo conhecia de sobra a fama de comilão do tal besouro,a sua pouca educação e,também,o estranho gosto que tinha em contrariar os outros.Se lhe pediam para voar para a esquerda,era para a direita que ele ia.Se lhe rogavam que fizesse menos ruído com as asas,tratava logo de provocar uma autêntica trovoada,transformando-se numa espécie de berbequim voador.Além de que era um revoltado.E,se quisermos ser justos,até somos capazes de lhe dar alguma razão...É que os besouros vivem três anos debaixo da terra(por vezes,cinco,nas zonas mais frias da Europa),e,apenas,três semanas ao ar livre!É nos meses de Agosto ou de Setembro que eles se transformam em insectos perfeitos,para só na Primavera poderem deixar as escuras catacumbas onde se encontram durante todo esse tempo.Concluíndo:o besouro Felizardo,tal como todos os seus irmãos de espécie,tinha,tão-só,algumas semanas para viver em pleno!E,então,toca a aproveitar!Mas-convenhamos-,era um exagerado!Empanturrou-se com folhas de carvalho,de nogueira e de salgueiro até cair para o lado!E,sabe-se lá por que bulas,embicou com as folhas daquele castanheiro,e parecia disposto a deixá-lo "depenadinho" de todo,quando lhe apareceu pela frente Ranu."O que estás a fazer é muito feio!",disse ele a Felizardo num tom ríspido."Será que só há folhas neste castanheiro?!",continuou."Não tens nada com isso!",ripostou o besouro."Tenho,sim,e muito!",volveu Ranu,esclarecendo que estava ali substituíndo o senhor seu pai."O castanheiro precisa das folhas para cumprir o seu ciclo;e,tu,estás a impedi-lo",recordou-lhe o gnomo."Tanto se me dá!",disse Felizardo com um zumbido de desprezo."Pois fica sabendo que,em nome da Mãe Natureza,estás terminantemente proibido de comer mais folhas deste castanheiro!!!",gritou-lhe Ranu.Ao ouvi-lo invocar tal nome,Felizardo,que era castanho,ficou amarelo.E decidiu parar com o estrago.Mas,antes de partir para outras paragens,fez um voo rasante em direcção ao gnomo e,qual avião de guerra despejando as suas bombas,lançou um excelentíssimo cocó sobre a testa do estupefacto(e enojado)Ranu!Após alguns segundos de justificado embaraço,o filho de Agrimindo encolheu os ombros,libertou-se do malcheiroso "presente" e continuou empenhado na sua importante missão.E,mais do que a torpe vingança do besouro,lastimou a sua falta de respeito por um bem que,afinal,era de todos!Quantos de nós não andamos a imitar o besouro Felizardo!?...Dá que pensar,não dá?
A FLORESTA VENTUROSA
Certamente,gostarás de saber onde se situa a floresta na qual decorrem as histórias que te tenho contado,não é verdade?Primeiro,deixa-me que te dê a conhecer o seguinte...Há muito,muito tempo,um rei de coração bondoso mandou que se plantasse no seu reino uma floresta muito particular,decretando-a interdita a lenhadores e caçadores.Assim,quem quisesse cortar uma árvore ou abater uma peça de caça,teria de o fazer bem longe daquele território,ou seria severamente castigado.Por tal motivo,prosperaram nesse lugar abençoado árvores das mais diversas espécies e um sem-fim de animais silvestres.E o tal rei baptizou-a de Venturosa,e fez jurar aos seus súbditos que dariam a própria vida,se preciso fosse,para a preservar de todo o mal.Morto o rei e desfeito o reino,a Floresta Venturosa desapareceu,ficando dela,apenas,uma ténue lembrança.E a roda do tempo continuou a girar...Mas,alguns séculos mais tarde-e como que por milagre-,aquele lugar animou-se de novo,voltando a ser o que já fora:um espaço de eleição,onde coabitam harmonicamente belas árvores,flores magníficas e únicas,e os mesmos animais que outrora nele viveram.Hoje,chama-se Mata de Albergaria,e fica situada em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês.Porém,os gnomos,os duendes e as fadas que dela cuidam,continuam a chamar-lhe Venturosa.E têm todos os motivos para isso!
SONHO OU REALIDADE?
Nas férias grandes,Paulo e Leonor deixavam sempre a grande cidade onde residiam,rumo à aldeia natal de seus pais.E repetia-se,todos os anos,a agradável sensação de penetrarem num mundo novo,pleno de sortilégio,e que se abria generosamente perante os seus olhos:a paz dos campos,a imensidão do céu,o canto das aves,e até o silêncio-um silêncio que guardava dentro de si as mais belas melodias!Esse tempo abençoado,era passado pelos dois irmãos em constantes brincadeiras e em longos passeios pelas redondezas.Ora foi num desses passeios que tudo aconteceu...Ao penetrarem numa floresta vizinha,escutaram um zumbido que logo lhes chamou a atenção,pois não se parecia nada com o que vulgarmente produzem os insectos.Aproximaram-se,pé ante pé,do lugar de onde partia o estranho ruído e que viram?Um gafanhoto vestido como um "gentleman" e-imagine-se!-praticando funambulismo(1)numa longa teia de aranha que a noite enfeitara com pérolas de orvalho.Paulo e Leonor esfregaram os olhos várias vezes,temendo estar a ser vítimas de uma mera alucinação.Mas não.O gafanhoto era mesmo um gafanhoto-um gafanhoto-verde ou,como diria o meu professor de Zoologia,um "Tropidacris grandis".Sem tirar nem pôr!Estaria a ensaiar para um espectáculo?...Ficaram a observá-lo,mudos de espanto,a respiração contida e os corações batendo como cavalos a galope.Mas o seu espanto viria a atingir o auge quando assistiram a uma autêntica revoada de fadas!Com efeito,pequenos seres alados e translúcidos rodopiavam sobre as suas cabeças,numa dança plena de graciosidade e magia.E,como se isso não bastasse,surgiu do nada uma esfera que fazia lembrar uma enorme bola de sabão,porém mais baça,e da qual partia o tal zumbido que há pouco os surpreendera.De súbito,a esfera deteve-se,tal como o zumbido,partindo dela uma voz que penetrava no cérebro dos dois irmãos.Essa voz era suave e profunda,e tinha o condão de lhes transmitir uma calma tão doce e tão arrebatadora que se sentiram como que voando sobre um lago azul,transformados em duas garças de alvíssima penugem.Porém,tão depressa como surgira,assim aquela esfera de estranhos poderes desapareceu.E,com ela,as fadas e o gafanhoto-verde.Foi como se uma mão invisível tivesse accionado um interruptor...Paulo e Leonor entreolharam-se,estupefactos.E decidiram sair dali o mais depressa possível.Terminadas as férias,regressaram à cidade.E nunca chegaram a saber se a experiência por que haviam passado fora apenas um sonho ou a mais incrível realidade.Eu,sei que foi real.Mas como não posso prová-lo,deixo a cada leitor a liberdade de opinar.|(1)Funambulismo-Chama-se à arte de deslizar numa corda bamba ou arame.
ANU,O GNOMO
Um dos mais simpáticos habitantes da floresta é,sem dúvida,o gnomo Anu.Pelo seu aspecto,dir-se-á ter a idade de um bebé;mas,na verdade,tem mais de duzentos anos!A sua tarefa consiste em controlar as abelhas-tal como os pastores fazem com os rebanhos-,ordenando os enxames,ensinando a cada membro as propriedades das flores,e conduzindo-os aos lugares mais propícios a uma boa colheita.Por isso,quanto maior for a experiência do gnomo apicultor,melhor será o mel produzido.O dia de trabalho de Anu e dos enxames começa,cada madrugada,com uma reunião levada a efeito num outeiro onde cresce,viçoso,o musgo-terrestre(1).Quando o gnomo tem,já,à sua volta,todas as abelhas,indica-lhes o rumo que devem tomar e em que flores devem colher o pólen.Alguns destes laboriosos insectos detestam o apicultor,e ferram-lhe sem piedade.Porém,o seu veneno funciona na corrente sanguínea do gnomo como um poderoso elixir,dando-lhe ainda mais vitalidade e tornando-o imune a todo e qualquer tipo de doença.Os verdadeiros amigos da Natureza devem afastar-se dos lugares onde as abelhas fazem a recolha do pólen,para que as pequenas trabalhadoras aladas não se assustem e possam levar a cabo a sua missão-tão importante como necessária!Sempre que tomarmos mel,devemos agradecê-lo,mentalmente,ao gnomo Anu.E,se o fizermos com verdadeira convicção,até é possível que ele nos apareça. | 1-O musgo-terrestre é uma erva sagrada dos druidas.Entre os Celtas,apenas os sacerdotes e sacerdotisas podiam colhê-lo,sendo obrigados a cortá-lo com um punhal de prata.As plantas e os esporos(colhidos em Julho e Agosto) eram utilizados para bênçãos e para protecção.
SEGREDOS QUE QUASE MAIS NINGUÉM CONHECE:O RENASCER DA NATUREZA
Todos os anos,na segunda quinzena de Março,Selena,a fada,mostra aos habitantes da floresta o Ovo de Ouro,em cujo interior está guardada,desde o princípio dos tempos,a energia através da qual se dá o renascimento da Natureza.Numa cerimónia muito simples(como simples são as coisas mais belas e autênticas),coloca o ovo no chão,no centro de uma grinalda confeccionada com azevinho,urze e margaridas silvestres,e perfura-o levemente com uma agulha feita de um material semelhante à platina,mas que só se encontra no interior da Terra.Então,a energia contida no ovo começa a sair,formando um magnífico arco-íris que,em poucas horas,se transforma numa imensa nuvem colorida,dentro da qual voa um infindável número de borboletas,e que acaba por cobrir,primeiro,toda a floresta,e,depois,o hemisfério inteiro(chama-se hemisfério a cada uma das metades do Planeta).É aquilo que os astrónomos denominam de "equinócio da Primavera".A palavra equinócio significa o momento em que o Sol,no seu movimento anual aparente,passa do hemisfério sul para o hemisfério norte(em 20 ou 21 de Março).Enquanto o ovo solta esta formidável energia,Selena entoa um belíssimo cântico,dizendo:"Que tudo reverdeça e se perfume,/desde as planícies ao mais alto cume;/e que a força do Amor,nesta estação,/cresça,sem parar,em cada coração".Depois,recolhe o Ovo de Ouro e vai guardá-lo no Ninho Sagrado,construído pelos pássaros que habitaram a floresta há vários milhões de anos,e no qual se encontram igualmente depositados o ovo correspondente ao equinócio de Outono, e outros aos quais me referirei mais adiante,quando voltar a este apaixonante assunto.
A HISTÓRIA DE SALIM
Salim,a corçazinha,saltitava alegremente na orla da floresta,perante o olhar embevecido de sua mãe.O sol nascera há pouco,saudado,como sempre,pelo chilrear dos pássaros e pelo canto dos galos,cujo som o vento trazia das mais longínquas aldeias;e adivinhava-se um dia magnífico,com o céu muito azul e os mil perfumes da Natureza enchendo o ar.Salim e a mãe iam para aquele sítio todas as manhãs,por causa da qualidade da erva que ali crescia-mais verde e mais tenra do que no resto da floresta.Além disso,corria perto um riacho de água fresca e cristalina,que sabia bem beber após as refeições.Para Salim,aquele lugar era como que uma cópia exacta do Paraíso;e,mal acordava,logo insistia com a progenitora para que a acompanhasse até lá.Mas ela não gostava,apenas,do sabor da erva e da frescura da água.Também admirava as flores silvestres,as frondosas árvores,o voo das frágeis borboletas,e tudo o mais que compunha a beleza daquele lugar de eleição.Estava ela observando a sua própria imagem reflectida nas águas espelhadas do riacho,quando um estrondo sinistro se fez ouvir,ecoando através da floresta.E outro se lhe seguiu,tão forte e assustador como o primeiro.Todos os animais sabiam,de sobra,de onde provinha:das armas mortíferas dos homens."Escondam-se imediatamente!",gritou-lhes Mestre Texugo,que já tivera um mau encontro com os caçadores.E todos se apressaram a seguir o seu conselho,de tal modo que a floresta pareceu transformar-se,de súbito,num lugar completamente desabitado.Mas,para Salim e para sua mãe,era demasiado tarde...Ferida numa das patas traseiras,a corçazinha conseguiu,contudo,afastar-se dos seus algozes,que acabaram por lhe perder a pista.A mãe,porém,não resistiu ao disparo certeiro que lhe atravessou o coração.Indiferente às dores que sentia,a jovem sobrevivente correu enquanto as forças lho permitiram,até cair exausta.Via tudo nublado-como se,de repente,o sol tivesse sido substituído por um grosso manto de nevoeiro-,e sentiu que era chegada a sua derradeira hora.Todavia,avisado pelos outros habitantes da floresta,Triblindo,o gnomo,e o seu ajudante(um duende muito irrequieto chamado Zatrapim)foram em seu socorro.Num potezinho de ouro,Triblindo esmagou algumas bagas que Zatrapim colheu de um determinado arbusto,e aplicou o líquido obtido na ferida.Feito isto,recomendou a Salim que permanecesse ali deitada até à completa cicatrização da ferida-o que aconteceu uma semana depois.Ao longo desse tempo,quase todos os animais da floresta a visitaram,levando-lhe alimentos e demonstrando-lhe o quanto a amavam através de singelos mas significativos gestos.As formigas,por exemplo,fizeram para ela um coraçãozinho de minúsculas flores,ao qual se somaram outros presentes,qual deles o mais enternecedor.Quando,finalmente,pôde retomar a sua vida normal,Salim não se sentiu só nem por um segundo,pois todos a acompanhavam,tornando-lhe menos pesada a dor que sentia pela morte de sua mãe.Morte?!...A morte é coisa que não existe!,garantiu-lhe Triblindo.E explicou-lhe:"Tu não vês a tua mãe porque,agora,o seu corpo é feito de uma matéria diferente,muito leve e vaporosa.Mas está sempre ao pé de ti.Um dia,irás para junto dela,e nunca mais vos separareis".Assim se passa com as corças-e connosco,também!A vida é uma festa que jamais acaba,mesmo quando a maldade e a violência tentam destruí-la.Não o esqueçamos,pois.Olhai que as palavras do gnomo Triblindo são sábias!
UM VESTIDO MUITO ESPECIAL
Os animais mais jovens da floresta saltaram de contentamento quando Mestre Texugo-o ilustre director da escola local-deu por encerradas as aulas daquele ano lectivo,anunciando,ao mesmo tempo,a data da habitual festa de encerramento-a qual servia,também,para assinalar o início das tão desejadas férias grandes!O entusiasmo posto nos preparativos do evento foi geral,ou quase...É que,em casa do rato Crispim,o ambiente não era dos melhores.D.Nica,sua prendada mulher,tentava,a todo o custo,convencer a filha de que, o vestido que com tanto empenhamento lhe fizera para usar na festa,era tão bonito como os das suas colegas.Porém,a pequena Aldina não concordava nada com a opinião da mãe.Em seu entender,aquele vestido era feio,piroso,antiquado e ridículo.De tal modo que,se aparecesse com ele na festa,seria motivo da chacota geral.Os vestidos que as suas colegas e amigas iriam usar eram de marca,comprados nas melhores butiques,sublinhava ela,ora amuada,ora lavada em lágrimas.Para piorar ainda mais as coisas,Cisco,o seu irmão mais novo,pôs-se a fazer troça dela,dizendo-lhe que,com aquele vestido,fazia lembrar um figo seco,um guarda-chuva sem varetas,e outras patetices pelo estilo.Irada,Aldina perseguiu-o por toda a casa,disposta a dar-lhe uma valente surra.E fá-lo-ia,sem dúvida,se não fosse a rápida intervenção de D.Nica.Chegado o dia da festa,Aldina cruzou os braços,franziu o sobrolho e disse que não tomaria parte nela nem morta.E mais!:Que aqueles "farrapos" que trazia vestidos não os usaria nem no Carnaval!Porém,quando observou,através da janela,a multidão que se dirigia,entre canções e exclamações de alegria,para a Clareira Grande(o lugar onde,tradicionalmente,se realizava a festa),sentiu uma vontade irresistível de fazer parte dela,esquecendo,ao menos por instantes,o facto de usar um vestido que detestava.Quando a lua nasceu,o Quarteto dos Grilos-celebrado grupo musical-entoou a primeira melodia,muito saudada por todos os presentes.A Clareira Grande estava linda,ornamentada com flores trazidas pelos pássaros da terra dos homens,e iluminada por algumas centenas de pirilampos.Seguiu-se um animado baile,findo o qual Mestre Texugo anunciou que,nesse ano,iriam premiar a aluna mais bem vestida.Ao ouvir isto,Aldina desejou que se abrisse um buraco debaixo dos seus pés,para poder desaparecer.Mas,quando,após renhida votação,o porta-voz do júri a deu como vencedora,sentiu-se a criatura mais feliz do Universo!O prémio era-lhe concedido por o seu vestido ser diferente,dado que os outros,ao serem feitos em série,pareciam todos iguais.Radiante de felicidade,caiu nos braços de sua mãe,e pediu-lhe perdão pelo modo como se comportara."Sabes porque ganhaste?",perguntou-lhe D.Nica."Não",confessou a ratinha."Porque usaste um vestido feito com muito amor".Sim,era essa a "marca" do vestido:Amor.E tinha a forma de um coração.
A CARRIÇA VOADORA
Uma carriça voadora?Ora!E depois?!Todas as carriças são voadoras,não é verdade?São pássaros,têm asas...Que espanto!Pois é.Só que a carriça da nossa história queria pilotar um avião!Exactamente:um a-vi-ão!Quando chegou a altura de deixar o ninho,as irmãs fizeram tudo o que os seus pais lhes ensinaram.O primeiro voo foi quase um desastre.O segundo,já foi melhor.E,poucas semanas mais tarde,era vê-las sulcando os ares com toda a segurança!Porém,a nossa carriça ficou no ninho,sempre a magicar na sua ideia tola de voar como os humanos.Foi passando o tempo,sucederam-se as estações,mas não lhe esmoreceu o estapafúrdio propósito.As irmãs foram à sua vida,prepararam-se para constituir novas famílias,e ela ali,a comer à custa dos pais e sem mexer uma única pena.E,como se fosse pouco,ainda lhes exiguiu que lhe arranjassem roupas a condizer com o que,à viva força,pretendia ser:um autêntico ás da aviação!Quando o Inverno chegou envolto no seu gélido manto de neve,ainda a carriça se mantinha na sua,indiferente aos conselhos dos pais,que a tentavam dissuadir de levar por diante o que não passava de uma rematada tolice.Mas ela,teimosa como era,não lhes deu ouvidos.Contou-me,mais tarde,um chapim meu amigo,que a infeliz morreu de frio e de fome no ninho de onde nunca quis sair.Mas também ouvi dizer que caiu em si e deu um novo rumo à sua vida,transformando-se numa carriça igual às outras.Seja o que for que lhe tenha acontecido,uma coisa devemos ter em conta:é bom sonhar,sim,mas não com coisas completamente irrealizáveis.O bom senso deve pautar as nossas vidas,qual bússola guiando-nos através do grande oceano da existência.
MESTRE CUCO PINTOR
Chegada a Primavera,assentou arraiais na floresta um cuco que se auto-intitulava "mestre pintor"-um verdadeiro Leonardo da Vinci de bico!Quando anunciou,com grande pompa e circunstância,a exposição das suas obras,todos acorreram a tomar parte no grandioso acontecimento.E soltaram grandes exclamações de espanto perante as maravilhas que os seus olhos viam!Na verdade,o cuco era um génio!Ricamente emolduradas,as telas expostas-todas elas representando imagens da floresta- eram tão realistas que até pareciam conter os mesmíssimos elementos da Natureza:a luz do sol,o vento,o chilrear dos pássaros,e por aí adiante.Até que,indo a assistência de obra-prima em obra-prima,desceu de uma árvore,no seu voo inaugural,uma jovem sitela,que foi poisar,precisamente,do lado de dentro de uma das molduras,revelando,assim,a inexistência de qualquer tela.Afinal,todas as molduras eram,apenas,isso:caixilhos dourados,que mostravam não obras executadas pelo cuco,mas espaços vazios através dos quais se via a própria floresta!A princípio,a assistência riu com o insólito da situação.Mas depressa mudou de parecer,e voltou-se,ameaçadora,para o falso pintor,com o intuito de o castigar.Foi então que se ouviu a voz de D.Coruja-senhora de grande erudição e sabedoria-,exprimindo-se nos seguintes termos:"Detenham-se!O cuco enganou-os,é certo,fazendo-se passar pelo que não é.Mas vocês acreditaram cegamente nele,sem antes cuidarem de ver se o que fazia era verdadeiro.Também vocês quiseram parecer o que não são:grandes entendidos em Arte!"E,em boa verdade,D.Coruja tinha toda a razão.Quantas vezes,nós,por querermos parecer o que não somos,nos deixamos enganar e fazemos figuras tão ridículas como as que protagonizaram os animais da floresta!...
ABANDONADO

Num certo fim de tarde de Junho,chegou à floresta um animal vindo da terra dos homens,cuja natureza apenas os pássaros conheciam,por serem da Criação as criaturas mais viajadas.Lobo,não era.Nem raposa.Mas assemelhava-se-lhes.Tal como aqueles,tinha pêlo,orelhas,focinho...e uns dentes que metiam respeito!Os coelhos,mal o viram,zás!,correram logo a refugiar-se nas suas tocas.As doninhas,os ratos,os esquilos e demais roedores desapareceram como por encanto.E até o texugo-que é bicho poderoso e destemido-coçou o focinho de preocupação.Que animal seria aquele?E que estaria fazendo ali?Juno,o gaio,riu-se do temor revelado por todos e,bem assim,da sua ignorância.O tal bicharoco que não era lobo nem raposa,mas que tinha pinta de pertencer à família de ambos,era-imagine-se!-um vulgar cão.Restava saber como é que fora ali parar...Coube a Juno perguntar-lho.O cão lançou-lhe um olhar triste e respondeu:"É que ando perdido há vários dias".E,entre ganidos de profunda amargura,contou a sua história-infelizmente igual à de tantos outros cães e gatos deste desalmado mundo.Vivia,desde cachorrinho,no seio de uma família de humanos,composta por um casal e um filho pequeno.Precisamente,a sua presença em casa dessa família devia-se ao facto de o filho do tal casal desejar muito ter um cão.Puseram-lhe o nome de Leão e trataram-no sempre com bondade.Só que ele cresceu,transformando-se não em mais um componente daquele lar,mas num fardo.Quando,em determinada altura,decidiram ir passar férias ao estrangeiro,olharam para Leão e logo lhe traçaram o destino.Alguns dias depois,meteram-no no carro,como normalmente faziam.Ele pensou que se tratava de mais um passeio;mas não era assim.Chegados a um lugar ermo,pararam a viatura e ordenaram-lhe que descesse.Ele fê-lo,abanando a cauda festivamente,como era seu costume.Dessa vez,porém,em vez de ouvir os passos dos donos atrás de si,escutou o som surdo da porta fechando-se de novo,e o ronco do motor em plena aceleração.E observou,sem compreender,como o carro se afastava velozmente e se perdia na distância.A princípio ainda correu,na tentativa de o alcançar,mas logo percebeu que era impossível.E ali ficou parado,em plena estrada,de olhos marejados de lágrimas,fitando o horizonte."Foi assim que,após alguns dias de caminhada,cheguei até aqui",concluiu.Então,Juno teve uma ideia.Na serra próxima,vivia um pastor cujo cão morrera de velho.Se ele fosse até lá,era quase certo o homem adoptá-lo como novo guarda do seu rebanho.Leão passou aquela noite na floresta,enroscado junto à árvore onde o gaio costumava pernoitar;e,mal o sol nasceu,puseram-se a caminho rumo à serra,ao encontro do pastor.Este,mal viu Leão,logo o chamou para junto de si.O animal aproximou-se,e o homem perguntou-lhe,ao mesmo que o acariciava:"Queres ficar comigo?"Leão ganiu baixinho e lambeu a mão que o afagava numa linguagem que queria dizer "sim";e Juno regressou à floresta,grasnando:"Missão cumprida!Missão cumprida!"Como o pastor não sabia que o cão já tinha nome,decidiu chamar-lhe Luar.O tempo foi passando,e gerou-se entre o pastor e o seu cão uma sólida e indestrutível amizade,que Luar fez questão de compartilhar sempre com um certo gaio que,volta e meia,aparecia por aquelas paragens...
OS SAPATOS DE VERNIZ
Nenhum habitante da floresta se lembrava de uma invernia daquelas!Ventos ciclónicos,chuvas diluvianas,foi como se se abatesse sobre aquele lugar o rol completo das desgraças.As árvores derrubadas pela fúria do vento contavam-se por muitas dezenas,arrastando na sua queda os abrigos de muitos animaizinhos.Nico e Tica-um simpático casal de carriças- foram duas das muitas vítimas daquela terrível tempestade.O ninho, acabadinho de fazer com todo o esmero e devoção nos ramos de uma faia,ficou completamente destruído.Tica ia começar a pôr os ovos e,para tal,precisavam de construir urgentemente um novo ninho.Mas,onde?!Ralados com a preocupante situação,escutaram de Remi-o melro mais talentoso na arte do canto de que alguma vez se tivera notícia- o seguinte conselho:"Fazei o ninho nas casas dos homens".Que quereria ele dizer com aquilo?O afamado trovador explicou-lhes:"Os homens,para se abrigarem,constroem grandes ninhos de madeira e pedra,que são quase indestrutíveis se comparados com os nossos.Aí,encontrareis,certamente, o lugar mais adequado para tecer o berço onde hão-de nascer os vossos filhos".Como Remi era um pássaro muito culto e experiente,as duas carriças resolveram seguir o seu conselho.Partiram rumo à terra dos homens,sobrevoaram as suas casas e,quando viram uma janela aberta,não se fizeram rogados:introduziram-se através dela e logo se puseram a procurar o sítio ideal para a construção do ninho.Depois de algumas voltas,Nico descobriu uns belos sapatos de verniz,e achou-os ideais.Assim,em vez de um ninho,poderiam construir dois(um em cada sapato)!Como o espaço onde se encontravam era um quarto de arrumos situado num sótão,foi-lhes possível permanecer ali com total liberdade de movimentos durante todo o tempo.Num dos sapatos,Tica pôs os ovos.No outro,armazenava Nico víveres não perecíveis(1) para os filhinhos que iriam nascer.E esse dia chegou finalmente,enchendo as nossas amigas carriças de grande felicidade!Porém,quando,algum tempo mais tarde,o casal regressou à floresta com os filhos,verificou que estes olhavam por cima da asa os jovens pássaros nascidos em vulgares ninhos de palhinhas e penas ,dizendo,cheios de bazófia:"Nós,nascemos em ninho de verniz".Então,desgostosos com o comportamento dos filhos,Nico e Tica chamaram-nos à razão,fazendo-lhes saber que o importante não é o lugar onde se nasce,mas a bondade que se traz no coração.FIM |(1)Não perecíveis-Que não se estragam.Ex.,:as sementes.
SOLIDARIEDADE
Esta,é uma história tão simples como as flores do campo,mas luminosa e quente como o próprio Sol!E porquê?Porque fala de solidariedade.Contaram-me que,certo lenhador-homem carrancudo e de poucos amigos-,passava a vida a ralhar com a mulher,por esta ser muito caridosa.Pobre que passasse à sua porta,não partiria dali sem antes aquecer o estômago com um prato de sopa.No entender do nosso lenhador,as coisas deviam ser bem diferentes.Cada um que tratasse de si e,se não pudesse,santa paciência!A mulher dizia-lhe que não,que temos a obrigação de ajudar os mais necessitados,e que o gesto mais belo e amoroso que há no mundo é o de dar-mas dar com alegria e sem pedir ou esperar nada em troca.Todavia,as palavras da boa mulher não tinham nenhum efeito na mente retorcida do marido.Ou seja:entravam-lhe por um ouvido e saíam-lhe pelo outro.Até que,certo dia,adentrando-se na floresta em cumprimento do seu ofício,deparou-se com dois ratinhos que caminhavam devagar através da vegetação rasteira.E reparou,intrigado,que seguravam,com os dentes,as extremidades de uma erva.Dando mostras da sua insensibilidade,ergueu o machado disposto a espatifar de um só golpe as duas frágeis criaturas.Adivinhando as suas intenções,um dos ratinhos fugiu velozmente,desaparecendo num silvado próximo.O outro,porém,não se mexeu.Então,o lenhador percebeu o que se passava:aquele ratinho era cego,e o companheiro conduzia-o usando o pedacito de erva como ligação.Uma luz composta por todas as cores do arco-íris brilhou,de súbito,no coração empedernido daquele homem.E,pegando no ratinho cego,levou-o para casa,disposto a tratá-lo como a um príncipe até ao final dos seus dias.O milagre que a mulher do lenhador nunca conseguira produzir através da palavra,acontecia graças à atitude de dois pequenos animais-irracionais,talvez,mas com um grande e maravilhoso sentido de solidariedade!Que o seu exemplo seja proveitoso para todos nós.
O PATINHO DESOBEDIENTE

Naquela manhã,Delfina,a pata,disse ao mais novo dos seus cinco filhos:"Hoje,como estás muito constipado,não vais comigo ao rio".Donato,o patinho,não gostou mesmo nada da decisão materna,mas teve de a acatar.E lá ficou,de cachecol ao pescoço,vendo como a família partia para mais um dia de natação nas águas espelhadas do grande curso de água.Antes de desaparecerem numa curva do caminho,Delfina voltou-se para trás e repetiu ao filho doente o que já lhe recomendara antes :"Não saias de casa até ao nosso regresso.E não abras a porta a ninguém".Donato fez que sim com a cabeça e para ali ficou,triste como a noite,antevendo as horas de solidão que iria passar entre aquelas quatro paredes.E uma ideia condenável luziu na sua mente...Era como se uma voz muito persuasiva lhe dissesse:"Ora,Donato!Que mal faz se saíres só por uns minutos?..."Sim,que mal fazia?Era só dar uma volta pelas redondezas e voltar.Desse modo,o tempo passaria mais depressa,e não se aborreceria tanto.E quando a mãe e os irmãos voltassem do rio,encontrá-lo-iam onde o haviam deixado.Então,abriu a porta da rua,olhou em todas as direcções para ver se não havia perigo,e aqui vou eu,que se faz tarde!Uns metros adiante,encontrou o rato Isaías e um amigo,chamando nomes feios à coruja Quitéria.Donato não gostava nada dela,porque sempre a achara muito antipática,e juntou a sua voz ao pequeno coro que a insultava.Estavam nisto quando eis que surge,ao longe,a figura sinistra do raposo Zacarias.Mal o viram,os dois ratitos deram às de vila-diogo;mas Donato,com o seu andar lento e desajeitado,pouco podia fazer...Ainda por cima,de tão assustado que estava,perdeu por completo o sentido da orientação e,em vez de voltar para casa,adentrou-se na floresta.Zacarias,que já o vira,lambeu os beiços de satisfação,e nem sequer apressou o passo,pois sabia que o patinho não poderia escapar-lhe.Donato chorava,desesperado,maldizendo o facto de não ter seguido os sábios conselhos de sua mãe.Mas agora era tarde para demonstrar o quanto estava arrependido.Até que,a certa altura -e quando tudo já parecia perdido-,ouviu uma voz que o chamava,e um vulto alado que descia velozmente sobre ele,para no segundo seguinte se ver transportado pelos ares,preso por umas garras que o seguravam sem o magoar.Era Quitéria,a coruja,que,num gesto de generosidade,o estava pondo a salvo dos dentes do raposo.Pouco depois,a coruja pousava de mansinho no ramo de uma árvore ,em cujo tronco oco tinha a toca;e,com ela,Donato."Esconde-te aí",ordenou-lhe a coruja,apontando para o buraco forrado de penas.O patinho não se fez rogado,e Quitéria pôs-se a piar como sempre fazia."Eh,velha comadre!Não viste por aqui um pato?",gritou-lhe,lá de baixo,Zacarias."Um pato amarelo e enfezado?",perguntou ela."Já cá canta no meu papo,compadre!",mentiu,rematando:"Deixe-me que lhe diga uma coisa...Não perdeu nada em não lhe ter metido o dente.Aquilo era só ossos e penas".O raposo encolheu os ombros e foi-se embora,pensando,talvez,no galinheiro que iria assaltar na próxima madrugada."Salvaste-me a vida",disse Donato,agradecido,tentando beijar com o bico uma das asas de Quitéria.Nisto,apareceram Anita,a joaninha,e o besouro Simão,que sempre vinham tomar chá e pôr a conversa em dia com a bondosa coruja.Donato ficou com o grupo até Zacarias estar bem longe,e regressou a casa acompanhado pela sua salvadora.E quando,ao fim do dia,voltaram do rio a mãe e os irmãos,encontraram-no muito sossegado,e nem sequer desconfiaram do perigo por que tinha passado e das lições que recebera.Quanto a ele,jurou para si mesmo que não voltaria a ser desobediente,nem a pensar mal de ninguém.
UMA LIÇÃO EXEMPLAR

Tap-Tap,o filho mais novo da coelha Rufa,adorava pregar partidas.Todos os animais da floresta conheciam e reprovavam essa sua faceta e,por isso mesmo,tratavam de abrir bem os olhos sempre que o coelhito surgia com o seu ar trocista.Umas vezes,aparecia esbaforido,gritando:"Incêndio!!!Incêndio!!!"E todo o povo deixava as tocas e os ninhos,fugindo a bom fugir perante o que era,apenas,uma falsa ameaça.Então,Tap-Tap ria a bandeiras despregadas e ficava muito orgulhoso por ser capaz de enganar tão bem os outros.Outras vezes,fingia que estava a ser perseguido pelo raposo Zacarias,e todo o mundo se escondia muito bem escondido,não fosse aquela alma danada mudar de ideias e,em vez de perseguir o coelhito,virar para eles a sua dentuça afiada.Rufa andava muito triste com o comportamento do filho,porque sempre lhe dissera que não se deve mentir nem fazer troça de ninguém.Mas os seus conselhos,se entravam nos ouvidos de Tap-Tap,depressa saíam.Até que,um dia,fartos das suas brincadeiras de mau gosto,os habitantes da floresta decidiram dar-lhe uma lição.Foram ter com Mestre Mocho -o cérebro mais brilhante do lugar- e pediram-lhe que descobrisse um modo de acabar com as tropelias do jovem coelho.Mestre Mocho coçou o bico várias vezes e,finalmente,disse:Já sei o que ides fazer".E expôs o seu plano.Com folhas secas,cascas de árvore,raízes,penas e outros materiais que foram encontrando ao acaso,criaram uma espécie de monstro que tanto podia ser uma raposa corcunda como um urso com a barriga na testa,e ao qual chamaram,por isso mesmo,"rapurso".Pediram aos manos esquilos que se metessem na "pele" do tal bicharoco -para dar a ideia de que era mesmo um ser vivente-,e foram colocá-lo a poucos metros da casa de Tap-Tap.Quando este saiu -levado,certamente,pelo propósito de enganar,uma vez mais,os habitantes da floresta-,eis que lhe aparece pela frente o tal "rapurso",roncando e abrindo ameaçadoramente as goelas.Apavorado,Tap-Tap voltou para casa e foi agarrar-se,tremendo,às saias da mãe.E mais tremeu quando alguém bateu à porta e disse:"Eu,Rapurso,génio desta floresta,ordeno-te que não voltes a enganar ninguém,ou serás severamente castigado!"Tap-Tap prometeu,naquele mesmo instante,emendar-se.E,segundo consta,transformou-se num coelhito ajuizado,amigo de todos e por todos querido.
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